sábado, 9 de julho de 2016

'PINGO DE GENTE' ( NOVELA DA VIDA REAL ) reeditado


DESDE JÁ, OBRIGADA PELA LEITURA!



            Tudo na vida, acontece por um motivo.
.


“Ela era uma gracinha, miudinha, todos a chamavam de PINGO DE GENTE”...






“Pingo de Gente”, quase nascera na boleia de um caminhão.
Sua mãe entrara em trabalho de parto e o pai da criança estava trabalhando.
Restou pedir ajuda ao vizinho caminhoneiro, que acaba de chegar de viagem.
Ele a levou a primeira clínica que achou no bairro de Vista Alegre, no Rio de Janeiro.
Um bairro praticamente de portugueses e seus descendentes.
Com sua família não era diferente.

Entretanto, essa clínica não estava inaugurada ainda, operários faziam os retoques finais para isso.
A pedido do homem e a título de emergência, o médico responsável aceitou realizar o parto.
A clínica não tinha nenhum bebê nascido ainda, por estar nesse processo de término das obras.  A menininha seria a primeira a nascer ali.

No alto da sala de recepção, estava uma santinha em uma prateleira de mármore, com uma rosa branca e um terço nas mãos.
A mãe, Abigail, decidiu trocar o nome escolhido para a filha (seria Cristina), para o nome da santa: Fátima.

Abigail era de Pernambuco, viera par o Rio de Janeiro com seu irmão ( transferido pelo trabalho) e mãe. Casou-se com Val, filho da portuguesa Emília e de Eduardo:
Um marinheiro cearense, filho de índio, que fez Emília fugir para se casar.

Abigail ao olhar para a santa, e sabendo ser sua filha a primeira a nascer ali, viu isso, como um sinal dos céus:
- Vai ter o nome da santinha, será minha homenagem.

De certa forma era, porque a menina nascera laçada.
O povo antigo dizia que quando uma menina nasce laçada tem que ter nome de Maria na frente.  Então, ela se tornou Maria de Fátima.
“Pingo de Gente” era rosadinha, sorridente, e tinha muito cabelo para um bebê. Olhos castanhos claros e cabelo castanho escuro, quase negro.




A infância


O que realmente a menininha gostava de fazer, era ficar na cozinha, vendo sua avozinha cozinhar e andar para lá e para cá.
“Pingo de Gente” era bem esperta e prestava atenção em tudo, começou a ler aos quatro  anos de idade.
Olhando o jornal que estava espalhado pelo chão da cozinha da avó, dizia:
-Vovó, está letra, mais essa letra, forma o que?

 A avozinha respondia paciente, ia explicando tudo para “Pingo de Gente”.
Sua avó paterna, a portuguesa Emília, tinha sido autodidata e aprendera também a ler e escrever por conta própria. Aliás, Emília sofreu muito em seu tempo, mas não se deixou esmorecer. Mais à frente, contou sua história de vida para a netinha, que ao se transformar em autora, muitos anos depois, escreveu tudo.
Dessa forma, registrou sua homenagem para a avó que tanto a incentivou no começo.

Voltando para nossa Pingo de Gente:
Pouco tempo depois, a menininha sabia as sílabas.
Juntando tudo, aprendeu finalmente que sozinha sabia ler o jornal do chão da cozinha.
A avozinha percebendo então, disse para a mãe da menininha:
- Põe logo essa menina numa escolinha! Ela já sabe ler, falta aprender a escrever e a desenhar as letras.
A mãe da menina, assim o fez.
Aos seis anos, já usava os óculos de tanto consumir os livros, revistinhas e tudo que fosse agradável de ler.
Era sempre todos os anos a primeira da sua classe.
Natural, pois adorava estudar! Assim, “Pingo de Gente”  ia para a escolinha, toda contente.

Aos oito anos, surgiu um problema na vida da menininha:
Com o sarampo que pegou, ficou sem enxergar por um bom tempo.  Via tudo em branco, como se estivesse com um pano dessa cor nos olhos,  e nada mais.
Todos pensam que os cegos enxergam o preto com seus olhos abertos, mas a menina não! Pelo menos com ela, era uma imensidão de branco total. 



A interferência divina veio, mas uma vez “Pingo de Gente” voltou a enxergar da noite para o dia, e ninguém entendia nada.
A menina não desanimava, crescia feliz.
Tinha um irmão três anos mais novo, sua única companhia na primeira infância.
Brincavam muito no quintal e faziam cavalinhos, dos cachorros que ali tinham.
Lá se iam os dois, aprontando o dia todo. 

As lembranças dessa época retratam bem como era aquele momento do final dos anos 60,  começo dos 70:
O armário de cozinha era CARIOCA, a vovozinha dizia assim para o vovô:
"Põe ali na CARIOCA, meu velho"...
O aparelho que tocava discos, era VITROLA
( móvel  de madeira lustrosa, que se usava nas salas de estar).
Aliás, nas salas havia sempre o mesmo jogo, com duas poltronas e um sofá, que chamavam de "sumiê".
Também tinha de ter uma mesinha com pés de rodízio para colocar a TV. Na parte de baixo, se colocava jornais ou revistas.
Nas camas, as famosas bonecas “dorminhocas” que ‘Pingo de Gente’ achava que eram muito feias.

O banheiro de ladrilhos brancos e cerâmica vermelha no chão tinha aqueles crochês todos:
Desde o jogo para sanitário, bidê e tapetinho, até o porta papel higiênico. No banheiro da avó Emília tinha decalques de bonequinhas tomando banho, para todos os lados. Era a moda da época.

As mulheres ainda gostavam de usar anágua. Usavam também cabelos com laquê se estivessem presos, e com uma corrente fininha sobre  a cabeça, se estivessem soltos.

A maquiagem era mais “pesada” que hoje me dia. Os cílios postiços estavam em alta.
Brincos de argola e cintos largos faziam o jogo com os vestidos mais floridos, no melhor estilo hippie: Paz & Amor.

E os homens então? Calça de nylon para os mais tradicionais e ‘boca de sino’ para os jovens que também deixavam o cabelo crescer nessa época, baseado no estilo que viera dos Estados Unidos.
Tempos que guarda chuva, chamavam de chapéu:
"Não vai levar chapéu? Olha que vai chover"...


Podiam-se ver as crianças na calçada, em noites de verão, brincando de roda, pique, coisas assim...
As pessoas se falavam mais, ficavam do lado de fora do portão conversando coisas simples do dia a dia, ou uma notícia que chamou atenção durante o REPÓRTER ESSO...

Pouco depois, substituído no coração dos brasileiros, pelo JORNAL NACIONAL.
As novelas eram "água com açúcar" e se aparecia um beijo mais acalorado, as mulheres comentavam:
"Nossa, isso está ficando uma perdição”...

Aqueles tempos eram muito bons, as crianças tinham poucos brinquedos, então inventavam brincadeiras de rua... Mesmo sem tecnologia digital nenhuma tudo era diversão!

Quando Fátima cresceu e começou a escrever como autora independente, pensou logo em um conto sobre algo que marcou sua infância. Chamou de:
Chá de Bonecas  
Uma casa que tivesse televisão significava certo status, a família que tinha, certamente era de classe média emergente...

Com o tempo, meu pai comprou e foi uma festa para mim.
Poderia assistir os desenhos, filmes e os programas voltados para as crianças pequenas como "O Capitão Furacão e Capitão Asa, além é claro, dos seriados da época: Robô Gigante, Perdidos no Espaço, etc...

Assim, sem muitas coisas novas para brincar, apenas a TV e uma vitrolinha portátil (que eu punha discos de vinil com historinhas de contos de fada e canções de roda), fazia então o meu entretenimento.
Seguia a vida da forma simples das crianças brincarem: inventando as próprias brincadeiras...

Minhas únicas coleguinhas eram: Stella Maria e Wilza Carla.
Porque na nossa rua, não havia muitas meninas e minha mãe também não deixava que eu brincasse fora do portão de casa.
Então ia brincar com elas em sua casa, ou vice versa...
Wilza Carla recebeu esse nome pela artista de outra época, a quem um de seus pais queria homenagear...
Acho que ela nunca gostou de ser chamada assim...

Todas nós tínhamos um Chá de Bonecas. Sempre havia quem os desse para as meninas:
Se não fosse seus pais, com certeza seria outro parente ou ainda um vizinho convidado para o aniversário da menina.

Eu mesma, em um aniversário, ganhei três de modelos diferentes, mas sempre de plástico. Muito embora, achasse que não combinava em nada com as 'Cozinhas Americanas' com fogões e panelinhas de ferro que também a maioria das meninas tinha como brinquedo...

Bem, eu apenas tinha o fogão com as devidas panelas, mas eles caíram no poço do quintal um dia, e fiquei sem...
Minhas duas amigas queriam então fazer o Chá de Bonecas, para que usássemos nossos joguinhos novos. Mas as bonecas mesmo eram escassas. Custavam caro. Eu tinha apenas três e era meu tesouro!
As irmãs Stella e Wilza, tinham umas duas, a mais do que eu, afinal quando uma ganhava de algum parente, a outra também recebia.
Porque já nesses tempos, estavam órfãs de pai (morrera afogado na praia devido a uma câimbra) e a família agora era chefiada pela mãe que recebia uma pequena pensão que mal dava para nada.
A mãe delas, Deuzith, fazia trabalhos extras para completar a renda e contava com a ajuda das filhas e algumas vezes oferecia a minha também:
Era um trabalho feito em casa, empacotando figurinhas e montando os fardos para serem levados para uma distribuidora de álbuns em bancas de jornal.

O Chá fora marcado, mas não queríamos usar mesmo nossas bonecas, porque poderiam estragar de alguma forma, e isso os pais não perdoavam... Tinha coleguinhas na escola, que contavam que as mães não deixavam que elas tirassem as bonecas da caixa.
Apenas ficavam enfeitando o quarto em que dormiam! Sempre achei aquilo um absurdo! Mas, ainda bem que minha mãe não se incomodava que eu brincasse com as minhas três bonecas.



Tivemos a ideia de ir para a varanda da casa das meninas e pegar uma cartolina para que eu desenhasse e montasse as bonecas. Elas recortariam e finalmente poderíamos brincar com o Chá, mas com bonecas de cartolina. Assim, passamos quase a tarde inteira entre a confecção das bonecas e o tal Chá, que não passou na verdade de refresco em pó diluído em água, daquela jarra gigante que aparecia nos comerciais de televisão, e que recebia nome de suco.


Entretanto, “Pingo de Gente” só foi aprender o que era brincadeira de rua, depois que ela, sua mãe, pai e irmão, foram morar em outro bairro:
No Irajá, em um apartamento, financiado em trinta anos.
Mas era preciso, pois Abigail e Val tinham que ter sua própria residência com seus filhos.
Emília sentiu uma grande tristeza quando viu a mudança do filho sair... Passou meses assim, até se acostumar.


Na casa onde passou sua primeira infância, rodeada de muitas árvores frutíferas, jardins e horta, (além de galinhas, porcos, muitos gatos e  dois cachorros), ficaram apenas seus avós paternos e uma prima de seu pai: Maria José, que viera do Ceará para estudar e tentar emprego no Rio.

Aliás, a casa de Emília e Eduardo, tinha essa característica de hospedar pessoas até que suas vidas se ajeitassem.




A   história de Emília e Eduardo, avós paternos de  Fátima


" Cabelo de milho" era chamada a portuguesinha rosada.


Emília era seu nome, mas ruivinha como era, os meninos da localidade onde morava  em Portugal, faziam essa chacota.
Aos dois anos de idade, seu pai foi embora.
Fazer a vida no Brasil, era esse seu plano.
Depois viria buscar a esposa e as duas filhas:
Olinda e Emília.
Mas não foi assim...
Passou-se muito tempo e ele não voltava.
Emília era a mais velha das filhas, e foi enviada para casa de sua avó paterna, por sua mãe.
Ela não queria ou não podia,  criar as duas crianças.
Apenas Olinda, a bebezinha, ficou com sua mãe.

Emília aos nove anos, não podia fazer nada além de trabalhar:
Sua avó paterna a empregou em casa de família, para cuidar de porcos, patos, galinhas...
Ela não tinha direito à instrução, pois a avó achava uma bobagem.
Emília dava alimentação aos animais primeiramente e depois limpava toda a sujeira que eles deixassem pelo terreno.
Cuidava que não faltasse água para a casa e os animais, com uma bomba d água movida a mão.
De uma coisa isso serviu: Logo a levaram para ficar no serviço dentro de casa, foi aí que ela aprendeu a ler e a escrever.

Como sua avó nunca se preocupara de dar-lhe estudo antes, criando-a apenas para ajudar nas despesas que ela tinha prazer de dizer que Emília lhe dava a menina finalmente teve sua chance.

Dentro da casa onde a menina Emília trabalhava, havia uma biblioteca. E ao limpar os livros todos os dias, ela aproveitava e os abria para aprender.
Foi em menos de um ano, que já estava alfabetizada.
As quatro operações básicas, também aprendera, ao estudar minuciosamente a Tabuada de Aritmética.
Depois disso, estava pronta para a vida.


Aos doze anos de idade, foi trabalhar em um arrozal, com água pela barriga, e as sanguessugas que lá existiam a apavoravam, entretanto, ela nada poderia fazer além de continuar.
Emília se sentia negligenciada pela mãe, pelo pai, pela avó.


Depois de muito tempo, sua mãe tomou uma decisão:
Já estava impaciente, depois de treze anos de espera!
Resolveu vir ao Brasil, procurar o esposo.

Primeiro, faria uma coisa:
Pegaria Emília de volta. Juntando as filhas novamente, faria uma surpresa ao marido, quando chegasse ao Brasil.

Emília ficou contente com a notícia, pois seria uma verdadeira "virada" em sua vida!
Para ela que tudo foi negado, poderia haver agora, uma esperança...
Ter afinal o que não teve, quando era mais criança.

Pegaram um navio a vapor, que era o que existia naquela época, e viajaram para Manaus, no Amazonas, pois era lá que seu pai estava.

Quando sua mãe chegou, soube que o marido havia casado pelas leis brasileiras com outra mulher, e já havia formado nova família, tendo filhos com ela.
A mãe abriu então uma mercearia em Manaus, pois não pretendia voltar para Portugal humilhada.
Se isso acontecesse, seria quando estivesse reerguida na vida...
Emília foi determinada para o serviço da mercearia enquanto Olinda, sua irmã, ficava com o serviço doméstico.
Sua mãe desiludida aceitou as investidas de Saraiva, um senhor (ainda solteirão) que vinha comprar em sua mercearia só para cortejá-la...
Acabou por ir morar com ela maritalmente, e foi um verdadeiro ‘pai’ para as meninas, ainda adolescentes. O pai que nunca tiveram antes.

Uma nova família se formou, porém, sem nada mudar para Emília.
Pois continuava a trabalhar na mercearia de sua mãe.

Assim, desde os seus quinze anos, até os vinte e dois, Emília passou seus pedaços também aqui no Brasil.
Entretanto, tudo  mudou quando Eduardo entrou em sua vida.
O porto de Manaus era muito movimentado e nos passeios rápidos entre um trabalho e outro, realizado para sua mãe, Emília o conheceu.
Ele era da Marinha Mercante.
Um moreno, de estatura mediana para alto.
Forte e muito bonito, era o tipo de homem que qualquer mulher gostaria de ter. Foi paixão à primeira vista, pelo menos da parte dele.
Já Emília, foi gostando aos poucos...  

Em relação a Eduardo, ele tinha mais atrativos que ela, pois era esguia, branca rosada, cabelos lisos e ralos, talvez por esse motivo, ela antes não tivera nenhum namorado. Enquanto Eduardo, com seus trinta e oito anos, tinha realmente tido uma mulher em cada porto...
Mas já era hora de formar uma família. Era com aquela portuguesinha, sincera e virgem que teria que casar.
Encontravam-se escondido de início, sempre que ele vinha à Manaus. Com o tempo, ela contou para a mãe sobre seu namoro.
Sua mãe não queria esse romance, fazendo de tudo para atrapalhar e Emília desistir de Eduardo:
Dizia que ele como marinheiro, teria uma mulher em cada porto.

Eduardo e Emília, resolveram fugir para casar.
A fuga seria na manhã seguinte, quando sua mãe não estivesse em casa.
Olinda, ao perceber que Emília fazia a mala, perguntou-lhe o que queria dizer aquilo:

- Para que essa mala, aonde vai?

- Vou fugir para depois me casar com Eduardo. A mãe não quer por bem, então vou dessa maneira.
Não vou deixar escapar a chance da minha vida.
Ele está com 38 anos e quer formar família, ainda há tempo para termos filhos, e eu quero sair daqui e da tirania da mãe. Juntamos a fome, com a vontade de comer!

- Não percebe que isso pode ser uma aventura? Pode nada disso dar certo, e você ficar jogada no mundo...

- Vai dar certo, Olinda! Agora vou. Não se preocupe: Darei notícias em breve. Um beijo e fique com Deus.

Emília saiu apressada pela porta dos fundos.

Quando sua mãe chegou e estranhou que Emília não estava em casa, perguntou para Olinda:

_ Onde está sua irmã? Deveria estar fazendo o almoço.

- É que... Sabe mãe, eu acho que não posso esconder isso, porque vou ser cúmplice: Emília está indo ao porto, para fugir.

- O que está dizendo? É verdade isso, há quanto tempo ela já saiu?

- Mais ou menos meia hora, mãe. Deve estar no porto, agora...

- Vamos, vou impedir que ela faça essa asneira!

Puxando Olinda pelo braço, foram correndo em direção ao porto.
Mas já era tarde:
O navio acabara de sair.

Depois de uma passada em Belém do Pará, finalmente estavam casados no civil. 
O novo casal se estabeleceu no Rio de Janeiro.  Desse ponto em diante, a família começou: Após três anos de casada, Emília engravidou.
Teve uma filha e quase dois anos depois, nascia o pai de Fátima, Val.




 "PINGO DE GENTE", ainda tinha muito que passar, era apenas o começo de uma vida de grandes tormentos. Veio à febre reumática e com ela, muita dor.

Seu corpinho franzino e pequeno era todo moído pela dor imensa nos seus ossos e chorava para andar. Um tratamento de dois anos teve que fazer. Mais uma vez “Pingo de Gente” sofria.

Foi uma dura batalha na sua vida. Superou com muita força e vontade de viver. 
Dois anos se passaram, e com dez anos ficou mocinha: 
Começa outra etapa da sua vida.
A segunda parte dessa novela:

Já não era mais chamada de "PINGO DE GENTE", pois estava uma moça. Na verdade, a nossa personagem ”professorinha”.
Destacava-se na escola, pois era muito atuante:
Desde teatro, balé moderno, até o Centro Cívico Escolar, onde era a presidente.
Ah, e como a vida sempre aprontava, para ela!
Surgiram dores de cabeça todos os dias, passava por vários médicos, nada se descobria...
Tratamentos com neurologistas, exames, enfim tinha uma disritmia.
Nessa agonia de dores de cabeça, deixou de ir muito à escola, e pela primeira vez, quase perdia o ano, por faltas...
De tanto sua mãe pedir, Deus, mais uma vez, fez a mocinha ficar boa de vez!
Com crises de reumatismo, ela retomou ao tratamento que no começo, se fez...

Fátima agora estava já chamando a atenção dos rapazes, pois com o passar da adolescência, ficou uma morena de cabelos longos, corpinho definido e assim, despertava a libido.
Seu primeiro namorado “oficial”, ou seja, apresentado aos pais, foi quando ela tinha 13 anos. 
Ele se chamava Danilo, e tinha 21 anos na época. 
Um namoro que começou com suas férias escolares em Recife e depois passou à Caruaru, em PE, quando o conheceu. 
Pela distância entre Rio e Pernambuco esse namoro acabou em dois anos. 
Era difícil manter, somente por telefone e cartas. Apesar de que ele chegou a visitá-la no Rio... 
Estava bem apaixonado e ficou muito triste com o fim do namoro... Por algum tempo, Danilo ainda ia até a casa dos tios de Fátima, em Caruaru, para saber se tinham notícias dela no Rio.
Nutria a esperança de que ela reatasse com ele e até quem sabe, ficassem noivos quando ela completasse os 18 anos... Mas, isso não aconteceu.
 
Bem, depois de namorar alguns rapazinhos, ela já agora, no segundo ano colegial (naquele tempo, segundo grau), conheceu um rapaz por quem se apaixonou de verdade, seis anos mais velho que ela, ou seja, ela tinha 15 anos para 16, e ele já tinha feito 21, a mesma idade que o primeiro namorado...

Foi assim:
Ela estudava em Madureira e fazia o secundário, saindo todos os dias às cinco e meia da tarde.
Nesse dia, 11 de abril, houve um incêndio em uma loja de móveis infantis.
O trânsito que já não era dos bons ali, ficou pior, porque houve mudança  para os bombeiros cuidarem de apagar o fogo que já se alastrava por outra loja.
Então, depois de muito tumulto e de ficar mais que quarenta minutos, esperando um ônibus parar. Fátima, finalmente conseguiu subir  para voltar para casa.
Nesse mesmo ônibus ele já estava. Com um olhar encontrado, eles se comunicaram numa intenção muda de se conhecerem.
Fátima então teve um de seus “avisos”:
“ É com esse rapaz que você vai se casar”

Quando ela desceu em seu ponto, ele fez o mesmo, para segui-la.
- Posso te acompanhar até sua casa?
- Bem, não deveria deixar porque não te conheço, mas... Pode sim, vamos conversando.
Marcaram um cinema para o dia seguinte, à tardinha, pois era um sábado e ela não teria aula.  Daquele dia em diante, começaram o namoro.
Foram três meses sem contato íntimo. Entretanto, em uma tarde, a mocinha que já não se aguentava de desejo encontrou o namorado e fizeram amor... Assim, ela perdeu sua virgindade.

Um ano depois, ela ficou grávida. Teve que contar aos pais.
Eles providenciaram o casamento.  Iriam morar a princípio, na  casa da mãe do rapaz,  até arrumarem uma casinha para alugar.

Aos 16 anos, quase 17, ela entrou na igreja, para se casar, numa linda manhã ensolarada, de quarta feira.
Fátima parecia que fazia Primeira Comunhão, pois pequenina como era, parecia uma menina!
Foram passar a lua-de-mel em Muriqui, RJ, numa casinha em frente à praia, que a meia irmã de seu esposo emprestou para tal ocasião.
Assim, começa outra fase de sua vida, talvez a mais complicada...
Porque poucas foram as alegrias, que eles só tiveram por 17 anos.
Os outros dez anos seguintes, foram só tristezas em sua vida: Cada dia era um página para ser sofrida.
Deus é testemunha quanto sofrimento o casal passou!


A vida em família na fase adulta

Teve seu primeiro filho, aos 17 anos, e todos achavam que ela por ser tão novinha, não daria conta da responsabilidade de criar um filho...
Ledo engano! Agora, ela era muito mais que uma adolescente, era uma mãe de família, que agarrou com unhas e dentes essa responsabilidade, e se tornou uma excelente mãe, que todos se admiravam como a jovem cuidava bem de tudo: da casa, do filho, do marido...
Quatro anos depois, estava tendo uma menina. Assim, aos vinte e um anos, ela já tinha dois filhos.

Nesses primeiros anos, a família viveu muito bem, faziam viagens pelo Brasil nas férias... Passeios, restaurantes, enfim, divertiam-se como podiam.

Foi uma época também de muito trabalho, pois Fátima abriu com o marido, uma lanchonete, uma mercearia, e ainda preparava pratos para entrega em domicílio...
As pessoas encomendavam até ceias de Natal, para ela, que fazia tudo: Entregava na casa da pessoa, tudo prontinho!
Pegou várias estafas nesse período, devido a tanto trabalho: Casa, negócio próprio, marido, filhos...

Todo o seu tempo era usado durante o dia, e muitas vezes, quando se deitava agradecia a Deus!
Entre crises de rins, pressão, ela foi se aguentando...

Surgiu um fibroma em sua boca, por dentro da bochecha (que ela ficou por dois anos), pois não tinha tempo algum para operar, porque muitas coisas dependiam dela!

Até que um dia, olhando no espelho a boca por dentro, tomou a decisão:
- Vou operar isso hoje!
Ligou para sua mãe, que já estava desesperada, pela demora da filha em operar, e chamou-a para acompanhar até a Clínica onde tinha convênio.
Lá chegando, passou pela consulta e a médica disse:
- Está muito passado... Devemos operar hoje e agora, para aproveitar o momento!
Assim, foi encaminhada para o centro cirúrgico.


Seus filhos estavam na escola, e seu pai de férias na época, foi buscá-los, assim os levou para sua casa...
Ela foi operada disso, e de mais: tiraram vários freios linguais que ela tinha na boca.

Seu esposo que estava no trabalho, foi informado pelo sogro, que ela tinha feito a cirurgia...
Ficou louco, por não estar sabendo de nada!
Largou o trabalho, correndo para lá e arrumando a maior confusão com a equipe médica...
Assim, levou-a da Clínica.
Fátima, que teria que ficar por mais duas horas, foi embora para casa antes do tempo...

Foram vários dias sem o marido falar com ela direito. Isso a magoou muito, porque nunca agira assim.
Sem poder falar direito ou comer normalmente, ela permaneceu calada.

O tempo passava...

Sempre mudando de casa, para lá e para cá, conforme os aluguéis aumentavam.
Assim, Fátima foi  vivendo até que aos trinta e três anos, quando teve a sua filha caçula.
Parentes, vizinhos e amigos acharam uma loucura, depois de dois filhos já adolescentes uma nova criança chegando. Principalmente porque seu marido apresentava sintomas de uma doença grave e que os médicos não acertavam o que era, e tratavam como psoríase.
Somente seis anos mais tarde, descobriu-se que era Hanseníase.
Já estava seu caso complicadíssimo, pela demora do tratamento específico, para essa triste doença.
Que  é mais conhecida como Lepra.

Então, todos tiveram  que fazer exames, para saber se contraíram.  Deus foi muito bom, e ninguém estava contaminado! Apenas ele.
Começou então, um tratamento que durou três anos (em vez de dois), porque o caso tornara-se muito grave...

Sendo assim, ela cuidou do esposo em tudo que ele  precisou.
Porém, essa doença é muito ingrata, e acaba enfraquecendo os ossos e nervos.
De uma queda na calçada da rua, ele fraturou três vértebras da coluna e achatou até a última, perdendo líquido da coluna.

Resumindo: Ele se tornou vinte centímetros mais baixo, e acabou ficando do tamanho dela, com 1,50m.
De uma perna para outra, os nervos também atrofiaram e encolheram, dando uma diferença de oito centímetros. Ficou manco.


Não podia ser operado, porque estava diabético, devido ao uso de corticoides para tratar a Hanseníase, e cardíaco também...
A essas alturas, ele já estava encostado, porque não podia trabalhar mais...

Fátima cuidou de tudo só:
Do marido doente, da bebezinha que acabara de nascer, do próprio negócio, da casa, e dos outros filhos agora, já adolescentes.
Novamente outra estafa para ela...

Seu esposo piorava em vez de melhorar, e já agora, só andava pendurado nas muletas, para todos os lados ela o acompanhava, com medo dele cair, porque o médico disse:
- Se ele cair de novo fica numa cadeira de rodas, para sempre!
Assim, ela foi levando...

Pouco depois, ele ficou também praticamente cego, apenas enxergando com 20% de visão.
Não podia operar porque além de cardíaco, posto que já havia tido três infartos, ainda atrofiara o pulmão, e não aguentava ficar deitado com a barriga para cima, pois o ar lhe faltava.  Como sua respiração era muito difícil, não daria para ficar na mesa de cirurgia.
Até tentaram, mas ele teve uma parada respiratória e teve que ficar no oxigênio...

Tudo isso, Fátima junto dele, acompanhando e sofrendo também.
A bebezinha, cresceu vendo o pai doente e a mãe se consumindo de tanto trabalho.
Nesse tormento passaram-se dez anos muito longos...
Ele: Sem enxergar, diabético, cardíaco, deficiente físico, com um pulmão atrofiado e um câncer no nariz, que apareceu por último...
Ela: Cansada, esgotada, e pedindo a Deus todos os dias misericórdia.



Agonia


Durante esses anos de tristeza, a nossa protagonista, teve uma vez pelo menos, uma casa própria.
A família mudou da Cidade do Rio de Janeiro, para outro município do mesmo estado: Itaguaí.
Foram pagando a casa durante quatro anos.
Entretanto, apenas moraram seis anos ali.
Com as doenças do marido, gastavam muito em tratamentos. Muitas coisas que tinham, foram sendo vendidas.

Quando a pequena caçula, também teve que ser operada às pressas, de apendicite supurada, em um Hospital do plano de saúde que tinham (mas não sabiam que não cobria a internação e a operação), ficou tudo pior.

A menina em duas horas poderia morrer, visto que tendo estourado o apêndice.
A 'sujeira' toda, tinha se espalhado pelo seu abdômen.

Assim, os pais nem pensaram muito e pediram ao médico para salvar a filha, a qualquer custo!
Depois pensariam como pagar ao hospital.
Outros problemas se formaram:
Fátima teve que deixar dois cheques como garantia.
Para cobrir os cheques, tiveram que vender aparelhos eletrônicos, computador e ainda não dava para pagar...
Amigos fizeram um bingo beneficente para ajudar a família.

Mesmo assim, não deu:  A conta era grande, visto que tudo era cobrado nos cinco dias que a mãe ficou no hospital com a filha internada... Até os algodões usados!

Deus sabe o que faz, e o porquê de termos que passar por tudo nessa vida...
A solução para tantos problemas, dividas e mais dívidas foi vender a casa e morar novamente de aluguel.
Foi o que aconteceu. Venderam por menos do que pagaram. Foi um prejuízo.
O dinheiro da venda foi para pagar o depósito do novo aluguel e para a família se manter ainda mais uns seis meses...
Nessa altura, os filhos mais velhos, já tinham se casado, pois casaram bem jovens.
Apenas a caçulinha Catarina, vivia com eles agora.
Ela herdou a ânsia de conhecimento de Fátima, e também era a primeira da turma, como a mãe por muitos anos fora.

Nesse ínterim, passaram muitas situações difíceis, porque já não existia mais a lanchonete e a mercearia para sustento...
Tiveram que vender também, para cobrir tudo que já deviam por aí...

O marido sem trabalhar, apenas recebendo o benefício do governo, nada mais poderia fazer.
Fátima não poderia trabalhar fora de casa também, porque seu esposo precisava de atenção o tempo todo, pelas suas doenças.
De vez em quando, a mãe e o pai de Fátima, levavam bolsas de compras para ajudar. Outras vezes, a comida já pronta.

Nesse tormento, que continuou por dez anos.
Um câncer no nariz de seu marido também apareceu, e por pouco, não ficou sem o nariz inteiro.
Mais um sofrimento.

Até que um dia, resolveram mudar de novo, desta vez, para Maricá.

Ele estava muito 'ruinzinho', e como a filha do meio, ali morava desde que tinha se casado, resolveram ficar perto dela. Alugaram uma casa por lá.
O filho mais velho, já casado também, permaneceu em Itaguaí.

A família, agora se instalava na Região dos Lagos
( RJ ).

O marido de Fátima, só vive trinta e um dias mais, do dia que chegou a Maricá.
Ao chegar, no dia mesmo da mudança, disse à filha do meio:
- Estou trazendo sua mãe, para você. Cuida dela e da tua irmã, porque sei que vim para cá, mas está perto de Deus chamar...

Assim, foi.
No dia 3 de abril de 2008, ele veio a falecer, depois de 4 paradas cardíacas, e traumatismo craniano também... Devido a mais uma queda, em sua vida.
A última semana dele de vida, foi totalmente triste, porque perdeu-lhe a razão... 


Insano dentro de casa tinha alucinações.
Fátima chorava de ver mais isso: O marido assim, louco...
E a filha caçula, presenciando tudo.

A família teve que o internar, no mesmo dia em que morreu.
Ao chegar ao hospital com a pressão 19x15, as paradas cardíacas começaram...
Na quarta 'parada', ele morreu.
A esposa ao ver o médico chegar para dar a notícia, disse:
- Não precisa dizer doutor. Já sei que ele se foi.

 “Pingo de Gente” ficou viúva aos quarenta e três anos de idade.

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EXTRAS:

Sem perder a vontade de escrever e relatar tudo que passara na vida, Fátima juntou fatos ocorridos também com pessoas conhecidas e/ou ligadas de alguma forma, à sua família, em alguns contos.
Um caso que aconteceu quando ela ainda tinha sua mercearia e lanchonete, registrou como conto em um de seus livros. Foi esse:

A BOLSA DE PEDRAS


Thiago nasceu na mesma época que Maria.
Viviam na mesma rua, do mesmo bairro,  na Cidade do Rio de Janeiro.
Ambos tinham atestada esquizofrenia.
Ao longo dos anos a doença se apresentou.
Diz-se por aí, (não sei se isso é verdade mesmo) que essa forma de doença mental precisa de um estopim, algo que desencadeie, como um grande choque na vida.

De qualquer forma, com ambos realmente foi preciso isso, para deixarem de parecer pessoas ditas "normais", e apresentarem o quadro de esquizofrenia.

Thiago era de estatura mediana, mulato de cabelos ondulados, bem apessoado. Maria era branquela, loira, descendia de italianos, uma mulher nem bonita nem feia.
Maria fez curso de instrumentadora cirúrgica, quando era moça. Trabalhou um tempinho em clínicas e hospitais, levando uma vida normal sem desconfiar da doença.


Conheceu um senhor mais velho que ela, por quem se apaixonou e desse relacionamento nasceu sua única filha.  Entretanto, ele tinha família e sumiu da vida de Maria...

Já Thiago, era contador e trabalhava para várias firmas. Morava sozinho numa casa que seu avô lhe dera. Mas Thiago um dia  casou-se  com uma bonita mulher e teve um filho com ela. Tudo corria bem até que certo fim de tarde, ele chegou cedo a casa (num horário que não era o de costume), pois sempre era lá pelas 19h00min horas, que retornava do centro do Rio.

Queria fazer uma surpresa para a esposa e levá-la para jantar fora com o filhinho. Mas ao chegar não a encontrou na cozinha, e um silêncio imperava na casa. Foi até o quarto do bebê e ele dormia tranquilo.
Ao abrir a porta do quarto de casal, deu com uma cena que daquele dia em diante, ficou em sua mente:
A esposa estava com um amante, na cama, que eles tantas vezes fizeram amor...
O choque profundo, bateu como um punhal em seu peito.
Dali foi desencadeada sua esquizofrenia, e a esposa foi embora levando o filhinho do casal.
Ele voltou a ficar só.
Ninguém lhe dava mais emprego. Com o passar dos meses a casa, antes bonita tornara-se feia  e suja.


Ele, em sua loucura, pichava as paredes de dentro e de fora. Espalhava lixo pelo quintal. Tinha crises em que jogava pedras nos vidros das janelas e quebrava as portas. Gritava dia e noite trechos da Bíblia, pois era evangélico, assim como Maria.

Esta, depois de ser deixada de lado pelo senhor com quem tinha tido uma filha, deixara seu emprego e vivia nua de um lado para outro das ruas do bairro. Seus parentes eram avisados e a levavam para casa.


Mas ela acabou ficando agressiva demais, atacando os vizinhos com pedras e paus. Sob a pressão da vizinhança, a família de Maria, a internou em hospital psiquiátrico várias vezes durante os ano seguintes...

Thiago também era levado vez por outra para o sanatório, quando também começava a passar dos limites e atacar quem passasse perto de seu portão.
Seu avô era chamado e se encarregava de interná-lo.

Tanto Maria como Thiago, quando controlados pelos remédios, passavam por pessoas 'normais'. Ninguém dizia que eram mentalmente doentes. Chegavam perto de mim e conversavam amenidades como uma novela que estivesse chamando a atenção do público, ou uma notícia do jornal.
Certa vez, falando comigo normalmente, Maria pegou um pedregulho na rua, e varou para me atacar dentro da minha lanchonete sem motivo algum. Escapei da pedra enorme por pouco, não estava na minha hora de partir desse mundo.

Thiago certa vez, vinha todo arrumado em um traje de passeio completo, com uma bolsa "tiracolo" (era assim chamada na época, não sei agora) para comprar um sanduíche na lanchonete.

Perguntei  enquanto preparava o cheeseburger, se ele estava trabalhando novamente.
Thiago respondeu:
- Estou sim D. Fátima, para a minha igreja, sou contador de lá agora.
- Ah, que ótimo Thiago! Recomeçar  a vida é sempre bom. Espero que dê tudo certo agora.

Ele deu um sorriso e respondeu de volta:
- Eu também D. Fátima. Quero ver como meu filho cresceu. Não entendo porque  a mãe dele, não traz o menino para que eu veja!

Eu apenas dei um olhar de compreensão e nada respondi. Mexer em feridas é muito ruim, ainda mais com quem  a gente nem sabe se vai de um minuto para o outro, nos atacar...
Reparei que a bolsa dele estava muito cheia. Perguntei então:
- Thiago, sua bolsa está tão pesada...
É necessário mesmo, levar tantas coisas para o escritório da sua igreja?

Ele pegou a bolsa colocou em cima do balcão da lanchonete e disse abrindo-a:
- É,  vou tirar um pouco do peso.

Foi quando Thiago começou  a tirar pedras de vários tamanhos da bolsa.
Não havia trabalho para ir, apenas delírio de uma mente insana...


Outra pessoa que Fátima quis homenagear escrevendo sobre sua vida, foi de sua madrinha Vanda.  Neste conto, descrita como Vânia. Seu padrinho que era Eduardo também (assim como seu avô), aqui tem o pseudônimo de Edson.
O início desse conto se mescla com a história de Emília e Eduardo: Aqui retratados como Conceição (que era o segundo nome de Emília) e Honório (também segundo nome de Eduardo)  e depois com a história de Fátima, como Fiona.
                                

 VÂNIA

Vânia era uma jovem pernambucana que conheceu um rapaz que trabalhava na Marinha Mercante: Edson;
Gostaram um do outro, em pouco tempo já namoravam.
Edson trabalhava juntamente com seu melhor amigo, Honório.
Honório, já tinha se casado com Conceição.
Sempre dizia a Edson que se casasse também, porque aquela vida de viajante pelo mundo, um dia iria acabar...

Teria de arrumar um emprego em terra firme. O ideal seria ter uma esposa quando voltasse para casa no fim de cada dia, esperando com um bom jantar e o carinho da mulher...

Animado com o incentivo de Honório, Edson pediu Vânia em casamento. Afinal, estavam apaixonados mesmo, por que esperar mais? Ela aceitou.

Rapidamente Conceição e Vânia já eram amigas também.
Os dois marinheiros ficaram em terra de vez, trabalhando agora, na estiva.
Moravam em bairros vizinhos e pelo menos uma vez a cada dez dias se visitavam.
Conceição teve dois filhos: Linda e Val, e Vânia três: Sérgio, Marina e Nadir.

As famílias durante anos se visitaram, a amizade cada vez mais firme...
Dos filhos de Conceição e Honório, Linda casou-se primeiro, e teve um único filho: Luiz Eduardo.
Val casou-se anos depois com Maria Abigail, e tiveram três filhos.

Sua primeira filha, Fiona, foi batizada por Vânia e Edson, que já estavam na casa dos quarenta e tantos anos, nessa época...

Os filhos de Vânia e Edson, já estavam todos casados e também com filhos. Apenas Nadir, não: era estéril... Ou seria o marido?

Anos se passaram, e as visitas de Fiona aos padrinhos era motivo de muita alegria para a menina: Sua madrinha Vânia, sempre fazia o seu bolo preferido: molhado com caldo de laranja ao sair do forno, e depois polvilhado com açúcar e canela. 

Além disso, ainda tinham os biscoitinhos de nata,  as brevidades e o café com leite mais gostoso, que em qualquer outro casa: com leite de cabra!
Tudo isso servido com pães e geleia que sua madrinha fazia, numa mesa grande (com toalha bordada e com crochê nas pontas) no centro da copa.
Havia no aparador, um relógio que batia a hora exata, mas fazia um estrondo danado! Era muito gostoso para todos, aquelas tardes de domingo!

Fiona, no dia da festa de seus 15 anos, ganhou de sua madrinha uma pulseira cravejada de pedras azuis, a sua cor preferida.

Um ano depois, seus padrinhos foram ao seu casamento: Fiona casara-se grávida, mas eles em nenhum momento fizeram qualquer comentário. Ela adorava seus padrinhos Vânia e Edson, que nesse tempo, já se encontravam na terceira idade...
Quando Fiona já tinha dois filhos, seu padrinho faleceu.
Ela sentiu... Gostava muito dele.
A madrinha Vânia, estava sem seu companheiro de tantos anos agora. Triste e preocupada, sofria tremendamente.
Dali em diante, a vida de Vânia se transformou:


Naquela época, quando se ficava viúva, os trâmites da pensão eram bem demorados, não havia a tecnologia de hoje, e a burocracia dos papéis em nada ajudava.
Vânia estava sem receber dinheiro, já fazia seis meses! Quem a ajudou nesse período foi justamente Val e Maria, seus compadres.

Vânia vivia outro drama: Quando sua filha Nadir foi largada pelo marido, ficou vivendo com ela, e estava diabética também. Sorte de Nadir por não ter filhos com seu marido: era um aproveitador barato, sempre vivendo à custa dos sogros por todos aqueles anos.
Nadir ficou cega pelas complicações do diabetes.
Nesse momento, Vânia já estava recebendo sua pensão e agradecida, quis pagar a Val, pelos meses de ajuda contínua...
Logicamente ele não quis receber, eram compadres, isso era como uma grande família, os laços de amizade eram assim naquela época...

Vânia estava apenas no começo do fim:
Nadir piorava a olhos vistos.
As despesas aumentavam, contas, medicação, alimentação...
Vânia tinha se queixado ao seu filho mais velho, Sérgio.
Pois não incomodaria seu compadre Val, mais uma vez.
Aliás, achava um abuso que seu filho nunca lhe oferecera ajuda, sabendo tudo que passava!
Sérgio tinha planos diferentes:
Queria vender a casa enorme de sua mãe, (seria o procurador) alegando que seria melhor para ela e Nadir,  uma casa menor para morar. Pois teriam menos trabalho.
Vânia aceitou a proposta do filho; assinou a procuração lhe dando plenos poderes para cuidar disso.
Entretanto, veio mais um choque em sua vida:
Sérgio deu-lhe apenas uma pequena parte da venda e ficou com praticamente todo o resto.
Fiona, que nessa época estava morando numa casa que pertencia a seu pai, já havia dito que iria se mudar. Vânia lembrou-se disso e ligou para seu compadre Val:

- Compadre, Fiona vai mudar de bairro, não vai?
- Sim, comadre. Por quê?
- Gostaria de alugar sua casa, se não tiver problema. Quando ela sair, logo em seguida eu entro. O que acha?
- Por mim tudo bem, comadre. Mas e sua casa?
- Vendi. Depois lhe conto tudo...
- Está bem. Na semana que vem, pode vir buscar as chaves, porque Fiona muda no sábado.
- Obrigada, compadre. Mande lembranças para a comadre Maria. Até logo.
- Até logo, comadre.

Depois disso, foi só uma coisa atrás da outra: Nadir faleceu.
Vânia ficou só e seu filho não mais a visitava, talvez fosse remorso, sem coragem de encarar a mãe.

Sua outra filha Marina, morando distante, também não vinha...
A depressão tomou conta de seu ser.
Em certa tarde, Vânia pegou um ônibus para ir pagar umas contas no banco.
Teve um mal súbito e caiu.
Os passageiros a ampararam e a levaram para o pronto socorro mais próximo, mas de nada valeu: Vânia teve um derrame fulminante e faleceu.
Era o fim de uma vida que havia sido muito feliz, até o dia em que seu marido morreu e tudo se modificou...
Agora devem estar juntos e sossegados.




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A vida da “Pingo de Gente” continuava com seu “sobe e desce”, mesmo depois da morte de seu marido.
Durante um ano e meio, mais ou menos, estava numa fase melhor, já recebendo sua pensão, mas, quando seu senhorio pediu a casa, tudo se complicou...
Antes porém, ela conheceu alguém que mudou também seu ritmo de vida. E começou  mais um capítulo na vida de Fátima, mas, que terminou em 15 de outubro de 2015.
Em 29 de fevereiro de 2016, devido à uma enchente em MARICÁ, RJ, nossa protagonista perdeu tudo e acabou desenvolvendo também uma asma, devido a proliferação de mofo que ficou na casa que ela alugava até então... Nova mudança tinha que ser feita. Ali, ela e a filha não poderiam ficar.
Moram atualmente numa vila de 6 casas, muito simples, mas, tentando recomeçar mais uma vez...
 
Então, mais um novo recomeço... 




Por:
Fátima Abreu


* Alguns contos aqui, já estavam nos livros: “FIOS DO DESTINO” e  “UM BAILE, UMA VIDA"



9 comentários:

  1. Isto é uma situação que me faz recordar a mim, enquanto menino pequenino, que esteve 5 vezes em Londres para ser submetido a exames devido ao meu problema de saúde que com o qual nasci.

    Beijinhos


    Frank_Mike

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  2. UM DIA, VC ME CONTA TUDO, FRANK? EU AQUI ABRI MEU CORAÇÃO PARA QUEM QUISESSE LER... HÁ PESSOAS Q JÁ SÃO MAIS RESERVADAS, MAS PARA OS AMIGOS MAIS CHEGADOS SE ABREM AO DIÁLOGO DOS SENTIMENTOS...

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  3. É MINHA AMIGA...
    NADA FÁCIL SUA VIDA,SUA LUTA.
    SÓ MESMO UMA GUERREIRA PARA ENFRENTAR
    TUDO ISSO E MESMO ASSIM, A POESIA
    BROTA COMO DOSES HOMEOPÁTICAS PARA AMENIZAR
    TANTOS DESGOSTOS.

    MULHER FÁTIMA
    MULHER DE VERDADE
    MULHER ADMIRÁVEL
    MULHER LINDA...

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    1. AMIGA, FICO FELIZ COM SUA VINDA AQUI, PARA DAR UMA OLHADINHA NA MINHA HISTÓRIA DE VIDA. UM GRANDE BEIJO, CLAUDINHA.

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  4. ___Fátima, vc realmente é um grande mulher, (admirável,uma pequena notável)...

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    1. OBRIGADA PELA LEITURA, AMIGO ALEX. UM BEIJO COM MEU CARINHO.

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  5. amiga boa noite vc é uma verdadeira gereira muitas x pensamos que somos a unica q ue pasamos por tantas dificudade nesta vida
    mas lendo o rezumo de sua vida e vendo o que vc pasou venho te dizer te adimiro por 2 motivos vc não perdeu a fé e sua sensibilidade
    como te falai não tenho dom das plavras pois tenho problema com a dislexia isso me atrapalha muito me formei com dificudade pela UFDBA EM ENFERMAGEM foi uma luta com a ajuda de uma amiga muito pobre mas de coração bom que me ajudava muito em minha ortografia pasei por varis prof particular mas não teve jeito leio muito mas te peço descupa por ser a pesoa que é uma escritora e um servo modesto kkkk
    muito lindo seu trabalho e isso demostra que as dificudade por pior que seja com força determinação corajem como vc teve e tem vai derubar muitas bareiras na sua vida
    MUITO OBRIGADO POR ME DAR OPRTUNIDADE DE SER SUA AMIGA BEIJOS

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    1. Edla, eu que agradeço sua amizade. Em tão pouco tempo, vc tem me dado um grande apoio. Um beijão.

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  6. Não julgue a Capa!
    Prof. Wagner Jardim

    Não me julgue pela capa...
    Quer saber algo sobre mim,
    Converse!
    Que você vai saber quem eu realmente sou.
    Penso que sou uma pessoa carinhosa,
    Um ser gentil,
    Uma pessoa legal,
    Sou uma pessoa amiga e leal,
    Sou uma pessoa com personalidade forte,
    Sou uma pessoa com objetivos e metas...
    Mas, com certeza não sou um boneco,
    Para não contrariar ninguém,
    Tenho caráter só faço o que quero e quando eu quero...
    Não o que a sociedade hipócrita me impõe...
    Eu penso sozinho,
    Eu não preciso de pensamentos feitos,
    Nem de pensamentos pré-aquecidos,
    Eu crio os meus próprios pensamentos...
    Se gostou leia o livro e conheça mais a história.
    Conheça o conteúdo.
    Quase ia me esquecendo amo futebol,
    Adoro esportes,
    Adoro estar amigos e família vendo um bom jogo,
    E tomando uma e outras,
    Quem sabe encontro a minha...
    Quem não sabes não encontres o teu príncipe encantado...
    E antes que fale que esse tipo de homem ou mulher não existe,
    Existe sim o cara ou a cara,
    Que quando esta apaixonado é capaz de qualquer coisa,
    Quando se gosta verdadeiramente nada importa,
    Nem existem defeitos...
    Pois Deus coloca a pessoa certa na nossa vida, acredite!
    O/a cara que pensa em você toda hora!
    Que conta os segundos se você demora!
    Que está todo o tempo querendo te ver
    Porque já não sabe ficar sem você!
    E no meio da noite te chama!
    Para dizer que te ama...
    Ou para fazer Amor!
    Não importa a hora!
    Não me julgue pela minha capa!

    Prof. Wagner Jardim – 11:59 28/04/2014 – juntando letrinhas sem julgamentos.

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