domingo, 20 de setembro de 2020

Novos efeitos...

 As chamadas intolerâncias alimentares vão  aparecer  cada vez mais... É  seu corpo rejeitando a alimentação  antiga, que não  serve mais para os novos padrões  que  seu corpo  físico  está  sendo moldado (pela Ressonância Schumann),  para  a 5 D.

Então perceberá: A evolução humana  também começa  na alimentação. 


Fátima Fatuquinha Abreu






Alimentação  leve, sem carnes, gorduras  e açúcar.
Sem bebida alcoólica. 
Muita água  mineral.
Meditação,  oração...
Evite TV.
Músicas suaves. Sugestão:
Sons Solfeggio. 
E  seja feliz nessa nova etapa.
Estamos em plena Transição Planetária!



 


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Livro 28


Pelo Sol do Amanhecer

Fátima Abreu
Fatuquinha

2020 








Introdução:

Naquela manhã, Dulcina, abriu a janela e respirou o ar puro da fazenda, como se fosse a primeira vez na vida.
Tempos atrás, não conseguiria sequer, pensar em estar ali.
Vinda de uma família com uma história aristocrata, fora educada na Europa:
Pois, no Brasil, a educação feminina era somente para ampliar os afazeres do lar, quando a moça se casasse. Ou ainda, socialmente saber falar um segundo idioma, e nos saraus em família, em que as visitas ilustres apareciam, talvez cantar e recitar poesias, ou ainda, tocar piano.
Algumas dessas senhoritas arriscavam o violino, mas, era raro o interesse por tal instrumento.
Eram feitos bordados, costuras, tricô e crochê. Aprender as cozinhar já não era o principal talento para as senhorinhas de famílias assim, visto que elas tinham serviçais em casa, para tal atividade do lar.
Dulcina olhou a paisagem à sua frente, sorriu e enchendo os pulmões de ar, deu graças aos céus por finalmente achar seu lugar no mundo.


Capt 1


O calor daquele verão estava maior do que os anos anteriores, no estado da Bahia.
Ela voltou os olhos para Marina que já dormia.
“Era um anjo no corpo de uma menina.” Pensava, enquanto embalava a filha da dona da casa...
O parto da senhora tinha sido difícil, quase morreu naquele momento. A boa mulher que agora estava com o bebê, foi a sua parteira, e era meses antes, ainda escrava...
A sua liberdade foi justamente conseguida, devido ao chamado "milagre" de ter salvo mãe e filha.
A mãe da criancinha, estava ainda na casa dos vinte e poucos anos, era muito bonita e educada.
Não tinha o buço característico das portuguesas, pois não herdara isso de sua mãe, tampouco os cabelos negros do restante de sua família materna.
Sobre seus ombros caíam cachos muito bem arrumados, de um ruivo intenso.
Sim, ela era a única que herdara geneticamente, os cabelos de sua avó paterna, a francesa, Marguerite.

Dulcina não tinha título de nobreza, mas, vinha de uma família rica, que preferiu deixar Portugal naqueles tempos difíceis, para tentar a vida em novas terras. O Brasil era o foco agora.
Seus pais deram à mocinha, uma educação voltada para as Artes, embora ela preferisse estar atenta aos inventos que apareciam no mundo naqueles tempos. 
Tempos depois, já casada com seu primeiro esposo, foi levada à uma reunião, onde conheceu o próprio D. Pedro II!  Dessa maneira, soube das novas invenções que ele trazia para o país.

Como o telefone, por exemplo. Foi na chamada Exposição Mundial (ou Universal) dos EUA, onde esteve presente, que conheceu e experimentou, o aparelho de Graham Bell.

* Nota: Um erudito, o imperador estabeleceu uma reputação como um vigoroso patrocinador do conhecimento, da cultura e das ciências. Ele ganhou o respeito e admiração de estudiosos como Graham Bell, Charles Darwin, Victor Hugo e Friedrich Nietzsche, e foi amigo de Richard Wagner, Louis Pasteur e Henry Wadsworth Longfellow, dentre outros.


Dulcina se encantou com as histórias que o imperador contava naquela noite, dos muitos países que visitara:
Pedro II chegou à Nova Iorque em 15 de abril de 1876, e de lá viajou pelo interior do país; indo até São Francisco no Oeste, Nova Orleans no Sul, Washington, D.C, no Noroeste, e Toronto, no Canadá.

Sua viagem foi um "triunfo completo", tendo Pedro II causado uma profunda impressão no povo americano por sua simplicidade e gentileza.
Depois atravessou o Atlântico, onde visitou a Dinamarca, Suécia, Finlândia, Rússia, o Império Otomano e a Grécia.

Em sequência foi para a Terra Santa, Egito, Itália, Áustria, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Países Baixos, Suíça e Portugal.
Ele voltou ao Brasil em 22 de setembro de 1877.
Em sua estadia nos Estados Unidos, Pedro II visitou o presidente Ulysses S. Grant; nesse mesmo período, na Filadélfia, Pensilvânia, visitou a primeira Exposição Mundial dos EUA. *
Foi quando descobriu muitas invenções que despertaram sua curiosidade. E o telefone passaria despercebido para muitos, se não fosse o interesse do respeitado imperador brasileiro, pelo objeto.

O Brasil foi um dos primeiros países a fazer uso de telefone, graças ao interesse do imperador pela invenção. Seu espanto quando usou a primeira vez, foi mostrado na frase que proferiu:
"Meu Deus, isto fala!"

Certo era, que o monarca tinha muito interesse nos assuntos envolvendo Ciência, e também desenvolvimento arquitetônico, social, literatura e Artes.


Dulcina desejava ardentemente que seu marido continuasse a amizade com o amigo em comum ao imperador (que os levou até ali), para outras vezes poder visitá-lo, nessas reuniões.
Mas, o esposo Maurício Noberto Montes, veio à falecer de doença tropical, em uma de suas viagens ao norte do país, para seu negócios, onde contraiu malária. 
Dessa forma, Dulcina enviuvara cedo, aos 20 anos. Visto que se casara aos 18, teve a vida de burguesa em ascensão, por apenas dois anos.
Os pais tinham se mudado do Rio de Janeiro para o interior de São Paulo, logo depois de casar sua única filha.

Dulcina que não queria ficar sozinha, pensava em voltar ao lar paterno, mudando-se para outro estado, onde nunca imaginaria viver antes! E deixaria finalmente a Corte do Rio de Janeiro, que considerava o passaporte para uma vida de conhecimento e cultura...


Os pais de Dulcina ainda eram jovens: O pai tinha 42 anos, e a mãe 40. Aventuraram-se na compra de uma fazenda de café no interior do estado de São Paulo (pois, era o ouro daquela época), logo depois de casarem a filha.
Dulcina escreveu-lhes uma carta compartilhando a morte repentina e precoce de seu esposo.
Uma carta nessa época, levaria no mínimo um mês para chegar ao destinatário.
Contudo, ela aguardaria a resposta de seus pais (já considerando positiva), para voltar a morar com eles.
Nos dias de espera por correspondência, ela se dedicaria aos estudos filosóficos e científicos, ideias que chegavam ao Brasil, bem avançadas:
Energia limpa, vinda da Tartária. Calçadas rolantes usando energia vinda da atmosfera... E muitas outras novidades, que eram consideradas inimagináveis para esse período da História!

A maioria da arquitetura do Rio de Janeiro, como de várias metrópoles do mundo, também era baseada na da Grande Tartária.

Capt 2



A carta chegou finalmente nas mãos dos pais de Dulcina. Uma carruagem trazendo suprimentos da cidade trouxe também o envelope.
Heloísa, mãe de Dulcina, acabando de receber todas as encomendas, foi então para a sala de estar da grande casa da fazenda, e acomodada ao sofá de tecido nobre e florido, começou a ler para o marido também ouvir:

"Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1880.

Queridos pais:
Venho por meio desta carta trazer as minhas notícias e espero em breve, da mesma forma, também receber as suas.
Hoje encontro-me viúva, pois meu esposo, Maurício Noberto, faleceu dias atrás. Vítima de malária, que contraiu dias depois de ter chegado à Manaus.
Não pude dar o enterro que ele merecia, haja visto, a distância separando os estados. Soube por carta de um dos seus ajudantes, que o acompanhou na viagem, e que tratou dos trâmites de seu sepultamento.
Minha saúde vai bem apesar da tristeza do acontecido... Contudo, não quero ficar sozinha aqui. Sinto falta de companhia familiar. Então, gostaria muito de voltar ao lar paterno; ajudando no que for preciso, para não deixar minhas despesas pessoais atrapalhar qualquer andamento do cotidiano de sua casa.
O meu esposo deixou considerável quantia no banco e que já retirei com a ajuda de um bom advogado. Certamente, tenho também algumas joias que ele me ofertou, nas datas de meu aniversário e festas de fim de ano. Cobrirei minhas despesas por um tempo com o que tenho nesse momento.
Mas, como boa filha, não lhes darei despesas mesmo que o meu dinheiro acabe:
Tenho em mente trabalhar na cidade onde moram, por estar perto da fazenda, como professora, ou governanta.
Mesmo que sejam ricos, eu como filha já emancipada pela ocasião de meu matrimônio, não acho justo que me sustentem.
O que peço somente é que me aceitem em seio familiar novamente, para que meus dias não sejam entediados e com uma solidão a corroer minha alma...
Aguardo com certa ansiedade uma resposta.
Com todo amor, da filha:
Dulcina "

Heloísa lamentou pelo genro, pois era um bom homem. Já o esposo, disse meio desapontado:
- Ora bolas! Uma pessoa ir para as terras do norte para morrer bestamente... Pobre de minha filha, ter tido um casamento tão lindo, para em menos de 3 anos, estar viúva!
A esposa respondeu contrariada com a observação:
- Mas, Miguel, pelo amor de Nosso Senhor! Pensar desta maneira... Lamentável o ocorrido.
Nossa Dulcina ficou sozinha e não estávamos lá para acalentá-la. Natural neste momento, que realizemos o desejo que ela tem de voltar a co habitar conosco.
- Com certeza. Hoje mesmo lhe escreva a resposta positiva.
- Sim, já tomarei a pena e papel e começo a carta...

Miguel enxugou a testa que brotava um suor incômodo daquele repentino calor que sentia.
Disse à escrava que estava rente aos senhores, já aguardando uma ordem, que trouxesse um copo de água fresca, pois o calor estava forte ali.

Heloísa que já estava tão acostumada ao calor tropical, não percebeu diferença no ambiente.
Levantou-se pedindo licença ao esposo (o que era costume naqueles tempos), e foi ao quarto, onde tinha uma rica escrivaninha toda ornada de arabescos e começou a escrever a carta em resposta à filha.


Dias depois, Dulcina sorria ao ler a carta que o mensageiro lhe trazia. A resposta afirmativa, deu-lhe novo ânimo. Agora teria somente de arrumar tudo que levaria para a fazenda de café dos pais; seria o de uso diário e pessoal, pois, lá teria tudo que precisasse.
Sua casa permaneceria fechada com a mobília. Caso um dia quisesse voltar para o Rio de Janeiro, teria para onde ir.
Uma conhecida, deu-lhe a ideia de alugar para alguém confiável, porque assim tomaria conta do imóvel, de maneira a dar a manutenção necessária.

Dulcina achou boa aquela sugestão e colocou um anúncio no jornal Gazeta de Notícias, dessa maneira:
"Procura-se pessoa de boa índole e com referências, que queira alugar imóvel semi novo, e que se comprometa a cuidar do mesmo com manutenção periódica (pintura e o que mais se tornar necessário). Preço a combinar. Procurar por Dulcina Azevedo Montes, à rua Capitão Félix, s/n, Freguesia de São Cristóvão."

Dias depois, num fim de tarde primaveril, batem à porta de Dulcina. Ela sorve mais um gole de café com leite, e deixa o sequilho de nata ao lado, num pires florido. Segue para o hall de entrada e sorrindo abre a porta.
- Sim?
Era uma jovem de braço dado com sua mãe, deduziu Dulcina.
- Falo com a Senhora Dulcina Montes?
- De certo. Em que posso ajudar?
- Viemos pelo anúncio de aluguel deste imóvel.
- Ah, sim! Entre por favor.

Dulcina errou ao achar que fossem mãe e filha, mas, o carinho que percebia de afilhada para com a madrinha, parecia o mesmo que se fossem realmente família.
As duas mulheres ao entrar, já percorriam com os olhos todo o ambiente e acharam tudo bem conservado, limpo e harmonioso.
- Eu me chamo Noely, e esta é minha madrinha Mercedes. Bem, trouxemos uma referência do Visconde de Areal, pois ele nos conhece há alguns anos, sabe de nosso caráter, e que cumprimos nossos pagamentos.

A jovem que deveria teria por volta de seus 20 a 22 anos, não era bonita, tampouco feia, padrões normais. Porém, o cabelo castanho claro era deslumbrante! Muito liso e sedoso, como um tecido vindo da Índia.
Estava preso ao alto, com lindo enfeite de pequenas contas que imitavam pérolas.
Nos lábios, suave carmim; O rouge clarinho, dava cor ao rosto muito branco.
Os olhos eram vivos e grandes, de um castanho tão claro quanto seu cabelo.
Dulcina depois de observá-la por instantes respondeu:
- Do Visconde de Areal? Muito bem! Eu o conheci em certa reunião que estive com meu falecido.
- Bem, vejo que está satisfeita nesse pormenor...  Agora Senhora Dulcina, quanto está querendo pedir de aluguel?
- Acho que uns 25.000 está bem para mim. Porque 45.000 Réis é o que uma professora primária ganha. Não sendo muito, acho que fica fácil de pagar. O meu objetivo maior é que cuidem da casa, da manutenção...
- Sim podemos pagar, pois trabalho, e minha madrinha tem renda deixada pelo meu padrinho.
- Ótimo!  Sendo assim, as senhoras me pagando em até quinze dias, eu libero a casa na última semana deste mês.
- Concordamos com esse prazo para que nos entregue as chaves da casa, contudo, já tenho aqui uma quantia que havia reservado no caso de fazermos negócio. Posso lhe pagar agora mesmo.
- Por mim, está perfeito! Vou fazer o recibo do dinheiro, e em seguida, mostrarei todo resto da casa.

Noely fez que sim com a cabeça, e apertou suavemente as mãos de sua madrinha nas suas. Ainda perguntou para Dulcina:
- Ah, por quanto tempo poderemos alugar? Porque minha madrinha e eu, temos vontade de passar ao menos dois anos aqui. Aguardamos o retorno de meu irmão, que foi estudar na Europa e falta apenas esse tempo, para que volte graduado em Engenharia.
- O tempo que quiserem. Não tenho pretensão de voltar à Corte tão cedo. E no dia que fizer isso, claro que enviarei uma carta muito tempo antes, para que saibam.

Dulcina as deixou momentaneamente sós na sala, enquanto se dirigia ao quarto para pegar o que precisava. Voltando, percebeu que as duas mulheres que permaneceram de pé, enquanto mantinham o diálogo, agora estavam sentadas conversando entre si.
Noely pegou na pequena bolsa de Mercedes, o dinheiro para pagar Dulcina.
Naquele mesmo momento, pegou o recibo que ela lhe entregava.
Dulcina perguntou-se porque Dona Mercedes nada comentava, deixando tudo ao encargo da afilhada.
Talvez, fosse dessas senhoras que tinham certo nome na Corte e caíra em falência, tal condição a deixaria constrangida.
 Dulcina saiu dos seus pensamentos e as levou para conhecer o restante do imóvel, que na verdade era mais que uma casa, e menos que uma mansão.
Madrinha e afilhada se sentiram muito bem naquele ambiente. O sorriso de ambas, denunciavam a satisfação.
Janelas amplas de rico cortinado e bandôs rendados, cobriam fracamente os raios do sol que teimavam em entrar... 
Quatro quartos ricamente arrumados, sendo dois grandes e dois menores, mas, que tinham a mesma cor azul, somente mudando as nuances em cada um deles.
Ainda havia mais um dormitório para serviçais, que se compunha de 3 camas e um armário amplo para roupas, além de uma mesa alta, com ânfora e bacia com água para higiene do rosto ao acordar.
Um espelho estava acima dessa mesa.

Nessa casa havia duas salas: A de jantar, com mesa para 10 pessoas e um aparador de 1,50 m de comprimento, além de uma cristaleira com louça para situações extraordinárias, como festas e saraus.

 Na outra sala, que era somente para reunir pessoas em conversas regadas a licores, e música suave do piano (tocado antes, por Dulcina), tinha no mobiliário 4 espreguiçadeiras, um grande sofá de madeira ricamente trabalhada, com belo estofado floral, uma mesa ao centro, e claro, o piano.
E antes que as visitantes pensassem ter parado por aí, viram uma saleta para chá, que dava vista para a varanda dos fundos onde se podia enxergar o belo e bem cuidado jardim.

Nesse jardim, quatro bancos pintados de branco, com um brilho de verniz, destacavam-se no verde que estava por todos os lados: Gramado muito bem cuidado, dois canteiros laterais e um no centro do jardim, contendo um mini chafariz, fechavam o cenário.
Naquela época os balanços estavam em moda nos jardins, desde que houvessem crianças na casa, o que não era certamente o caso.

Dulcina as levou então para a cozinha: Lá puderam conhecer também pequeno compartimento extra que servia como adega.
No ambiente existia uma ampla mesa, de grossa madeira, com 6 assentos. Um fogão de lenha ao canto, um grande armário para pratos e talheres (usuais do cotidiano), e vários utensílios de barro, como moringas e canecas, também alguns de cobre, pendurados em toda volta da cozinha:  3 bacias, 6 panelas, 2 chaleiras, 1 bule, 4 conchas, 3 escumadeiras, etc.
A um canto, havia colheres de pau, facas, um cutelo sobre uma grande tábua de madeira (para carnes, e uma tábua menor, para legumes e hortaliças).

Nesses tempos, a área para ser usada, que hoje chamaríamos de banheiro, era mais escondida e chamavam de "secreto", ficava longe dos olhos de visitas. Na verdade, nesse local, havia uma grande bacia que usavam como vaso sanitário, e uma torneira para lavar as mãos. Para tomar banho, tinham a banheira em seus quartos.

Na verdade, o asseio era uma coisa que praticamente se tinha nos casarões dos ricos e pessoas da nobreza, e seus excrementos eram jogados pelos escravos na rua.
Quanto aos pobres, não havia muito o hábito de ser limpo, ter asseio, e a palavra higiene, ainda não existia no vocabulário das pessoas.

Dulcina se privou de mostrar os três secretos que existiam na casa: Um no andar de baixo, para serviçais, outro no andar de cima, que ficava bem no fim do corredor, para os donos da casa e visitas que precisassem ocasionalmente de usar o recinto. E o último, no quintal, perto do jardim, para quem ali estivesse, e não conseguisse correr até o andar de cima da casa.
Havia ainda um local na frente do imóvel, para guardar a carruagem de Dulcina, que havia sido do esposo antes do casamento.
O que hoje, seria a garagem. Esse coche antes tinha um condutor, contudo, com a morte de Noberto, Dulcina o dispensou.
Pois, não era escravo, apenas um serviçal para aquele determinado trabalho, e as custas ficariam altas para que ela o mantivesse empregado.
Em vez do condutor, ela colocaria um dos ex escravos que ainda viviam na casa, apesar de ser já idoso, o Joaquim era muito bom em tudo que fazia, e desde que Dulcina se entendia por gente, ele era como um tio para ela, e não um escravo deixado pelos seus pais para lhe servir.

Ali permaneciam como escravos alforriados, Joaquim e a boa Maninha (um apelido que lhe fora dado desde criança e que perpetuou pela vida toda) e também sua única filha, Maria do Céu. 
A ex escrava fazia a comida e limpava a casa, sua filha passava e lavava as roupas.
Dulcina nunca tratou nenhum deles com autoridade de dona, antes deles serem alforriados pelo seu pai.
Ela cresceu os vendo como amigos que trabalhavam na casa. E fazia questão de estar perto deles, sempre que podia.
Para os pais, esse costume de Dulcina era tido como demasiado, mas, como tinham uma mente mais aberta quanto à escravidão, deram liberdade aos escravos, a pedido da filha.
Mercedes finalmente perguntou alguma coisa:
- Senhora Dulcina, deixará os serviçais na casa, ou os levará em sua viagem?

Dulcina franziu a testa e respondeu prontamente:
- Eles são livres para escolher. Embora, gostaria muito que fossem comigo. Caso queiram permanecer na casa, as senhoras arcarão com pagamento, um salário justo pelo trabalho. São pessoas ótimas.
- Bem, talvez não possamos arcar com os três... Mas, isso veremos depois de algumas contas.
- Deixo primeiramente a critério deles escolherem se vão ou se ficam.
- Sim, claro...
Dulcina cortou a conversa naquele ponto e já pensando:
" Essa senhora não abriu a boca para nada antes, e agora vem com essa... O que ela esperava, que eles a ficariam servindo sem pagamento? Como fazenda de porteira fechada? Nana ni nanão!"





Capt 3



Como foi dito, Dulcina deixou a cargo dos ex escravos para decidirem se partiam com ela, ou ficavam com a inquilina tendo emprego como serviçais da casa. O bom velho Joaquim, resolveu segui-la em sua viagem ao interior de São Paulo.
Já Maninha e sua filha optaram por ficar na Corte.
Tudo acertado, chegou o dia em que Dulcina partia... Joaquim como cocheiro, antes banhou os cavalos, escovou-os, preparando o coche já limpo internamente por Maninha.
As malas foram colocadas pela filha. As despedidas foram feitas, e Dulcina desejou de coração que elas ficassem bem e fossem tratadas com respeito humano, pelas novas patroas.
Dulcina ensinara a mocinha a ler e escrever. Então, pediu que mandasse notícias dela e de sua mãe, para ficar sabendo como andariam as coisas dentro da casa, a esse respeito.
Doía-lhe o coração, se quer pensar, que Noely ou Mercedes pudessem tratá-las mal.

A tarde primaveril foi testemunha da saída de Dulcina... As flores do jardim estavam florescendo e ela deixou cair uma lágrima, lembrando o quanto fora feliz ali... Todavia, era de temperamento inquieta aquela jovem viúva!
Não poderia ficar muito tempo solitária, apenas na companhia dos serviçais da casa. Precisava da única família que ainda tinha, seus pais.
As estradas não eram boas naquela época. Uma roda da carruagem deu sinais de problema, no primeiro dia da viagem. Estavam bem perto da Fazenda Sta Cruz, pois, Dulcina estava seguindo o chamado "Caminho de D. Pedro I".
Pararam, e o bom Joaquim foi procurar ajuda. Dulcina desceu e disse que o ajudaria se pudesse, mas, aquele trabalho requeria força de homem, e se ela o fosse, o ajudaria com certeza.
Joaquim riu da patroazinha.

Um senhor parado em frente à uma loja de charque, viu a repentina parada da carruagem e ofereceu ajuda. A carruagem era muito eficiente para tal viagem, pois, dispunha de quatro rodas.
Como apenas uma deu problema, o senhor ofereceu ajuda, arrumou rapidamente outra roda, claro, não de tão boa qualidade como a original, contudo, serviria com certeza, até o final da jornada.
Dulcina pessoalmente fez questão de lhe pagar pela roda utilizada, agradecendo a ajuda.

As pessoas dentro da loja de charque, observavam tudo, porque não era comum um coche da Corte, estar naquelas paragens. Com uma dama viajando sozinha, apenas com o cocheiro, era mais difícil ainda...
Dulcina ao notar ser o centro das atenções, soltou uma expressão em francês que eles não entenderam, mas, que significava que não era nenhuma atração circense.
Subiu novamente no coche, depois de beber boa quantidade de água, nessa mesma loja. E mandou tirar um bom pedaço de queijo e vinho da prateleira para levar.
A viagem seguia...  O tempo mudara drasticamente: O dia tinha sido abafado, de muito calor e no finzinho da tarde a chuva forte veio com rajadas de vento. Joaquim achou melhor que parassem numa estalagem para dormir, o que era difícil de se encontrar naquelas paragens.
Pararam para pernoitar mais adiante, pois, Joaquim como já era um senhor não tinha lá a visão das melhores... Além do mais, era uma época em que um caminho desses não tinha sequer iluminação.
Ali só existiam fazendas, sítios e chácaras, certo era então, que pedisse abrigo numa dessas opções.
Qual não foi a surpresa de Dulcina, ao descobrir que o dono de um dos sítios, era justamente o senhor que os havia ajudado a trocar a roda do coche!
Quando Joaquim bateu o sino da porteira do sítio, o senhor veio atender.
Ao reconhecer, o ex escravo disse baixinho:
- É o senhor que nos ajudou.

Dulcina abriu a cortina para olhar. Sim, era ele.
Desceu então, e pediu-lhe abrigo para passar a noite ali.
Ele cordialmente aceitou o pedido.
Dulcina sorriu agradecida.
Joaquim carregou uma maleta para dentro da casa (uma das várias que Dulcina trazia na carruagem para uso pessoal durante a noite, como a camisola e touca a ser usada na hora de dormir).
Logo depois deu água aos cavalos e os alimentou.
Dentro da casa, bem a um estilo rústico, estava a esposa e duas filhas. Pareciam ser gêmeas ao primeiro olhar, contudo, a diferença entre elas, era de um ano e dois meses. Eram adolescentes.
Meninas bonitas, cabelos crespos, loirinhas e de faces mais do que rosadas. Estavam mesmo queimadas do sol. Claro, aquela parte do Rio de Janeiro com certeza fazia muito mais calor, e já era primavera, o prenúncio de um verão quente.
As irmãs não estavam acostumadas a ver gente do centro do Rio. Nascidas e criadas nas terras de Sta Cruz, nunca viram o charme de uma pessoa vinda diretamente da Corte.

Ficaram encantadas com as vestes nobres da jovem. E mais encantadas ainda ficaram, quando a esposa do senhor Dona Eulália, perguntou depois de serem apresentadas, qual seria o destino daquela viagem que Dulcina fazia...
- Então, Senhora Dulcina, está indo para onde?
- Indo para o interior de São Paulo, pelo caminho de D. Pedro I.
- Nossa! Seria a senhora uma pessoa que gosta de aventuras, como nos livros?
- Sim, exatamente! Poderia ter optado por uma viagem de trem, haja visto, que agora existe essa opção com a Estrada de Ferro D. Pedro II.
- Mas, sabe de todos os riscos desta viagem, os caminhos tortuosos, a Serra das Araras...?
- Sou aventureira!
- Uma dama da Corte passar por todas essas coisas... Não sei se mesmo com esse seu espírito corajoso, irá conseguir... É um caminho de mulas e cavalos. Nunca vi passar uma carruagem! Talvez uma carrocinha ou outra...
- Mesmo assim, sou teimosa e vou continuar minha viagem.
- Que seja senhora Dulcina! Agora venha banhar-se e comer antes de dormir.

D. Eulália preparou o quarto coma banheira já com água morna para Dulcina. Sabão era uma coisa escassa, usavam então, uma espécie de produto feito com mel e óleo de coco ou palma.
A maleta foi posta na cama, para que a visitante pudesse pegar a camisola e a touca.
Numa mesinha, a um canto do quarto, estava um prato já pronto, pois as jovens da casa, já tinham se encarregados de ir para a cozinha, aprontar tudo.
Uma delas também fez um prato para Joaquim comer na cozinha.

Os sons dos grilos e sapos eram ouvidos mesmo sem querer. O local, por tantas fazendas, sítios e córregos por perto, chamavam esses animais típicos da região, a cantar uma sinfonia durante grande parte da noite.
Dulcina agradeceu a hospedagem e D. Eulália deu "Boa Noite" fechando a porta atrás de si.
Ela precisava de descanso, pois, andava adoentada, contudo, não queria que ninguém percebesse.
Joaquim dormiu num quartinho embaixo da escada que levava ao segundo piso da casa.
Ali, continha pequena cama e mais nada. Ele se encolheu e deu um jeito de dormir. Na manhã seguinte, acordariam cedo para seguir viagem.

Os pássaros em sinfonia, tomaram lugar dos sapos e grilos da noite anterior revelando o novo amanhecer. Dulcina esfregou os olhos e bocejou. Era bem cedo, umas cinco e pouco, ou seis horas da manhã.
No primeiro momento não reconheceu estar fora de casa.
Afinal, nunca estivera em outro lugar desde que se entendia por gente. Nasceu, cresceu, casou e enviuvou, na Corte do Rio de Janeiro.
Quando deu por si, aí sim, reconheceu a casa que lhe deu abrigo.
Lavou o rosto na ânfora que estava sobre a mesa, ao lado da cama, já com a bacia para amparar o que caísse fora. Retirou uma toalha de rosto da maleta e a usou.
Respirou fundo para sentir os ares da região campestre onde estava.
Na Corte, de certo que não havia aquele aroma primaveril. As ruas até tinham odores fétidos devido os excrementos que jogavam a todo momento.
Não fosse a cal que os escravos pulverizavam sobre tal montante, a cidade do Rio de Janeiro seria um chiqueiro a céu aberto!

D. Eulália bateu levemente à porta para saber se Dulcina já acordara:
- D. Dulcina, são seis e dez, está acordada? Joaquim me disse antes de dormir, que a chamasse por volta das seis, pois irão sair depois do café da manhã.

- Oh, sim, já acordei com o som dos pássaros por perto. Vou me arrumar e já desço para a sala.
- Certo. Nós arrumaremos a mesa para a refeição.
Dulcina, não pode deixar de admirar o jeito gentil das pessoas na zona rural. E as mulheres eram bem diferentes das senhoras de nariz em pé da Corte, com certeza!

A mesa posta na sala, oferecia bolo, pães e queijo, café, leite e biscoitos de nata. Também haviam bananas e maçãs numa fruteira no centro da mesa. Era tudo muito convidativo, pois Dulcina comera pouco na noite anterior, e acordara esfomeada!
Sentou-se e perguntou pelo cocheiro amigo:
- E o meu fiel Joaquim, já comeu?
- Ah, sim. Ele levantou às cinco horas e fez a refeição. Agora está cuidando dos cavalos.
- Quero lhes agradecer de coração, a boa acolhida em sua casa. E todas essas coisas à minha frente, me dando água na boca... Hum, que delícia esse bolo!



As filhas do casal sorriram satisfeitas, uma fez o bolo, a outra pôs a mesa. D. Eulália fez apenas o café, porque andava se poupando. As jovens percebiam que a mãe não andava bem, só não perguntavam abertamente.
Já o pai, com tantos afazeres de entregas (para as mercearias de secos e molhados da região), a lida diária também, não havia percebido o cansaço da esposa, e as dores de cabeça que iam e vinham...

Todavia, Dulcina, a viu colocar as mãos na testa por pelo menos, umas três vezes. Então, discretamente perguntou para as jovens irmãs:
-  Sua mãe está enferma? Parece que sente dores de cabeça...
A irmã mais velha respondeu:
- Ela não dá o braço a torcer, D. Dulcina, mas, percebemos que há cerca de um mês, ela anda cansada e tem enxaquecas. Estamos fazendo o que podemos nas tarefas diárias, deixando somente a comida por conta dela.

- Não vi nenhuma serviçal... Vocês não tem uma empregada que seja, para lavar, passar, cozinhar, limpar a casa?
- Não, nossas posses não dão para tal coisa. Escravos são caros D. Dulcina!

A outra filha acrescentou:
- Empregados com salário, não cabem também nas despesas de nosso pai.

Dulcina balançou a cabeça em sinal de entendimento da situação.
Pediu licença e se retirou da mesa. Foi buscar a maleta no quarto e retirou uma bolsinha com dinheiro.
Contou algumas moedas e cédulas, fazendo umas contas mentalmente...

Chamou as duas jovens e lhes disse sorrindo:
- Sou contra a escravidão, mas, como não podem pagar empregada, comprem uma escrava jovem, para ajudar no cotidiano desta casa.

Mas, me prometam: Assim que puderem, deem sua liberdade, com a proposta de que ela continue morando livre aqui, com casa e comida, para não ter que seguir em frente sozinha...
- Não podemos aceitar esse dinheiro senhora. Meu pai não gostaria...
- Diga que lhes dei de presente pela acolhida.
- Ainda assim, melhor não...
- Bem, então que aceite pelo menos uma quantia para pagar um bom médico da Corte.
- Ah, isso acho que podemos aceitar!
- Então aqui está. Com esse dinheiro, pagarão médico e os remédios que ele vier a passar.

As irmãs sorriram alegres, porque poderiam cuidar de sua mãe da melhor maneira agora.
As despedidas foram feitas na varanda da casa.
Todos estavam felizes, porque ao acolher a senhorinha da Corte, receberam da boa hóspede, um bem maior.



 Um último aceno foi dado da janela da carruagem, para aquela família na varanda da fazenda.
Dulcina gritou segurando as duas mãos em concha perto dos lábios:
- Até um dia!
Eles responderam em coro:
- Até logo!

Dulcina que faria mais ou menos um mês de viagem aventureira, resolveu começar a escrever sobre suas paradas e tudo que ocorresse, para quem sabe, fazer um livro...









Capt 4



Entre livros e paradas para alimentação, pernoites e banhos em fazendas, ela seguia registrando tudo que via em seu caderno. A tinta da pena começava a faltar. Uma parada onde encontrasse a tinta seria o ideal.
Naquele tempo não havia as chamadas papelarias em bairros, que dirá em meio ao interior fluminense numa jornada aventureira com buracos pelo caminho, de muito sol e alguns dias de chuva, animais, etc.
O que poderia fazer então, até achar realmente uma vila ou cidade, para comprar tinta?
Ela teve uma ótima ideia ao refletir sobre esse problema:
"Retratarei em tela esses caminhos! Afinal sou formada em Artes!
Para que fui estudar na Europa? Para usar o que aprendi, ora!"




E nesse diálogo consigo, ela esperou a próxima parada que Joaquim fizesse, para alimentar os cavalos e dar água para os coitados, e também eles fizessem uma refeição, para poder depois colocar-se a pintar o local. Claro, dessa maneira, imortalizaria aquele momento.
Eles já haviam passado por Bananal, São José do Barreiro, Areias...
Agora estavam na altura de Porto das Cachoeiras (hoje Cachoeira Paulista).
Não teria como aprontar uma tela com tão pouco tempo em cada lugar, decidiu então, fazer esboços com carvão.
Quando chegasse na fazenda de café de seus pais, aí sim, daria a finalização merecida, com várias cores, às telas que fosse desenhando pelo restante do caminho.
No dia seguinte, chegaram à Lorena. Nessa parada ela quis conhecer a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
Ainda passaram por Guaratinguetá, Aparecida, Pindamonhangaba e Taubaté, onde era o seu destino.
Finalmente chegava à casa paterna.

Os pais de Dulcina estavam aflitos com a demora da filha, pois a mesma não havia dito como viria, acharam que o melhor caminho a ser escolhido, fosse pela ferrovia. Mas, se assim ela tivesse feito, já teria chegado...
Um mês de viagem! E quem diria que seria pelo caminho de D. Pedro I.
Quando viram a carruagem chegando, ficaram pasmos!
Joaquim ajudou-a a descer e ela correu no jardim para os braços de Heloísa, como fazia quando criança. Dulcina quase deixou cair o choro, mas, se conteve. Fazia dois anos que não via seus pais, e estava emocionada, tanto quanto sua mãe.
O pai, Miguel, já menos dado a expressões de carinho públicas, esperou a porta de casa, para dar o abraço na filha.

Joaquim levou os cavalos para cuidar de alimentá-los e dar água, porque afinal os grandes heróis daquela viagem cheia de aventuras, foram eles!
Dulcina virou para o velho amigo dizendo em voz alta, pois estava distante:

- Assim que terminar venha banhar-se e comer Joaquim!
- Sim, Sinhazinha. Logo faço isso.

Ao abraçar o pai e receber as boas vindas, entraram no grande salão principal, onde se fazia os saraus aos sábados.
Dulcina ainda esbaforida pelo calor da estrada, pediu a mãe para indicar onde era seu quarto para tomar seu banho e depois comer. Já era quase a hora do almoço, afinal.
Uma mucama, a acompanhou para ajudar com malas e para preparar a banheira com sais vindos recentemente da Europa, que Heloísa havia comprado.

Durante a refeição, ela foi contando os pormenores de sua aventura pelos caminhos tortuosos de chão que percorrera nos últimos dias...
Seus pais quase de boa aberta nunca imaginariam a coragem de sua filha. Pois com uma educação europeia, criada entre os ricos, passar por todos aqueles melindres... Realmente, Dulcina os impactou!


E na parte da tarde, o passeio para conhecer a fazenda, o cafezal e tudo mais que pudesse seria feito.
Ela não parecia cansada apesar de tudo. Era um novo horizonte que se descortinava à sua frente...

Heloísa e Miguel evitaram falar de imediato sobre a morte de Maurício Noberto, porque Dulcina poderia ainda estar triste com sua recente viuvez.
Contudo, não estava. Ela tinha uma capacidade que só aparecia agora:
A de se levantar rápido das situações dramáticas. Caso não fosse assim, seria bem improvável a ideia daquela viagem do Rio até o interior de São Paulo.
No segundo dia em casa paterna, maravilhada com os campos e o ar bem mais puro que da Corte, resolveu dar um passeio, caminhava e se maravilhava com tudo.
Queria aprender a cavalgar o mais rápido possível, porque ali, ela teria como.
Miguel sabendo então da vontade da filha, primeiro escolheu um cavalo manso e ele mesmo se propôs a ensiná-la.
Como tudo que ela se propunha a fazer, conseguia, logo estava cavalgando pela fazenda e conhecendo o restante de toda aquela região.

Foi então que conheceu o pequeno grupo escolar. Desceu do cavalo com os cabelos já soltos arrancados do coque pelo vento, arrumou de forma a parecer apenas solto ao natural, aprumou a coluna e resoluta bateu à porta da escolinha.
Uma senhora de picinez veio atender. Era alta, loira, de olhos azuis e parecia ter por volta de 30 anos. Tinha rosto comprido e uma covinha no queixo. Vestia um traje que lembrava um uniforme de governanta, mas, diferenciava por ter um pequeno detalhe de margaridas preso na faixa que cinturava o vestido.
Não tinha nada de adereços femininos além de brincos perolados nas orelhas.
Nos cabelos presos em coque também, usava um pente que lembrava o das espanholas.
A professora disse então:
- Bom dia. O que deseja?

- Muito bom dia, senhora. Chamo-me Dulcina Montes, sou filha do casal residente na Fazenda Figueira da Foz.

Apertando a mão oferecida para o cumprimento respondeu:
- Conheço seus pais. Sou Amanda Dubois. Mas, o que a traz aqui?
- Posso entrar para conversarmos melhor?
- Oh, que indelicadeza a minha! Claro, entre...

Dulcina percorreu com os olhos todo o ambiente do grupo escolar:
Havia um corredor ao centro, e quatro salas de aula. Uma cozinha no fundo do corredor e um pequeno lavabo com pia.
Tudo pintado em branco com listras azul marinho.
O som das crianças era um pouco alto. Calculou que estavam no recreio.



A professora mostrou uma cadeira para que Dulcina tomasse assento.
- Confesso que estou curiosa. Diga-me a que veio...
- Primeiramente: A senhora dá aulas sozinha aqui, ou conta com alguma outra professora ajudante?
- Aqui trabalhamos 4 mulheres: Eu, a cozinheira, a faxineira e uma ajudante que ainda estuda para ser professora. Ela cuida dos menores para mim, pois, algumas mães perderam seus maridos pelos mais diversos motivos, precisam se sustentar trabalhando e deixam as crianças aqui conosco, da hora do almoço até as 17 hs.
- Oh, então devem estar sobrecarregadas!
- Bem, em alguns horários sim. Por que a pergunta?
- Porque tenho interesse de trabalhar como professora. Minha educação foi toda na Europa. Voltei aos 18 anos, para a Corte do Rio, já com casamento tratado pelos meus pais. Mas, enviuvei recentemente. Decidi sair da Corte e vir para cá, já que aqui estou perto dos meus queridos pais.
- Tão jovem e já viúva! Contudo, o que eu teria para lhe pagar seria pouco... Claro, seria de grande valia a sua ajuda aqui, mas... Não posso pensar como uma senhorinha da Corte, poderia se adaptar à ser professora aqui, ganhando tanto quanto a nossa cozinheira...
- Não se preocupe com isso. Tenho minhas reservas. Só não quero ficar dependendo do sustento dos meus pais, se essas reservas forem diminuindo... Já que sou uma mulher emancipada pelo casamento, e agora viúva, acho que devo saber me cuidar sem depender de ninguém.
- Vejo que tem ideias um tanto liberais... Deve ser pela sua educação europeia...
- Talvez sim, pode ser que Europa tenha me influenciado um pouco, contudo, tenho minhas próprias ideias. Acatei o compromisso de casamento porque sempre fui boa filha e por ter pais maravilhosos, não quis desapontá-los; mas, não amava meu marido. Eu mal o conhecia quando nos casamos!
- É isso ocorre com frequência na sociedade. Casamentos arranjados, são quase sempre sem amor.
- Bem, deixemos de lado minha história... Estou contratada?
- Hum, se está disposta a ter trabalho e ganhar pouco...
- Sim, sim. Assim me ocupo também. Gosto muito de crianças!
- Isso é ótimo, começa então amanhã?

- Hoje, agora, se quiser!
- Não, seria melhor amanhã, porque preparo todos aqui para te receber bem. Assim, terá o dia de hoje para se organizar também.
- Certo, melhor mesmo. Venho a que horas?
- Venha por volta das 7:30 hs, porque abrimos às 8 hs, assim dá tempo de lhe mostrar a sala de aula que irá ficar, o conteúdo a ser continuado, e saberá a quantas anda o progresso dos alunos.
- Muito que bem! Estarei aqui nesse horário.
- Ah, ainda lhe disse quanto vai receber...
- Como não? Acredito que seja o mesmo que a cozinheira...

A professora sorriu e balançou a cabeça afirmativamente.
Apertaram as mãos mais uma vez, despedindo-se.
Dulcina cavalgou novamente de volta com um largo sorriso no rosto e a certeza que começava uma nova etapa em sua vida.




Capt 5



A manhã seguinte foi de alegria para Dulcina: Acordou bem cedo, por volta das 5:45 hs.
Banhou-se em seu quarto e ali mesmo uma mucama lhe trouxe o café da manhã. 
Colocou um jato de água de cheiro feita com flor de laranjeira. A mucama que se chama Filó, ajudou-a a fazer o penteado do cabelo.
Dulcina deixou o coque meio fofo e a mucama soltou um pouco com o pente alguns fios ao lado do rosto da sinhazinha, deixando um toque juvenil. Em seguida, colocou uma pregadeira com suaves flores abaixo do coque, finalizando o penteado.

Dulcina passou um pouco de carmim nas faces para dar cor, pois andava bem amarelada. Claro, um mês se alimentando mal, devido à sua viagem aventureira!
Decidida, desceu as escadas da casa, deixou recado pela mucama para sua mãe, que voltaria por certo, somente na parte da tarde.
Filó sempre de olhos baixos respondeu:
- Pode deixar sinhazinha, dou seu recado.

Dulcina fez um movimento de meia volta e perguntou intrigada:
- Filó, porque você não levanta a cabeça? Está sempre cabisbaixa, pude observar isso desde que cheguei aqui...
- É que, sou escrava, então devo de ficar no meu lugar. Como olhar meus donos de frente, nos olhos?
- Mas, que tolice está me dizendo, Filó! Imagine, meus pais não fazem diferença entre escravos e empregados pagos!
- Sinhazinha, não sei na Corte, mas, aqui os fazendeiros do café, são diferentes... Escravo aqui é ferramenta.
- Que está tentando me falar? Que meus pais tratam mal os escravos daqui, com pulso firme?

- Não é culpa deles, sinhazinha... É dos fazendeiros por aqui, porque todos são assim, e para ter o respeito deles, talvez tenham mudado um pouco a maneira de manter os escravos trabalhando...
- Não posso acreditar nisso! Hoje ao retornar de tardinha, terei uma boa conversa com meus pais!
- Sinhazinha, por favor, não diga que abri minha boca apara reclamar de qualquer coisa. Estou satisfeita de estar aqui na casa grande. Porque se eu fosse para a lida do café, eu não ia aguentar... Sou muita fraca.
- Fique tranquila boa Filó: Nada comentarei sobre o que me disse. Tenho minhas maneiras de chegar ao ponto que quero numa conversa... Sei ser bem persuasiva, ainda mais agora que sou viúva, e não tenho que acatar ideias que não condizem comigo.
- Eu não sei o que é ser persuasiva, mas, acho que deve ser uma coisa boa...
 Nesse ponto, Dulcina riu. Respondeu:
- Ser persuasiva é conseguir o que se quer de um jeito especial...
- Ah, sim, agora entendi.



Dulcina deu um aceno de despedida para Filó, e em seguida, montou em seu cavalo, seguindo para o grupo escolar.
O sol brilhava anunciando mais um dia quente, o verão estava às portas e as roupas de Dulcina esquentavam muito.
Pensou como seria bom cavalgar como as lendárias Amazonas, com pouca roupa, e montadas no cavalo, como qualquer homem.
Aquela maneira feminina de montar de lado, nada ajudava no equilíbrio sobre o animal. E as saias abaixo do vestido só atrapalhavam!
Nessas horas um pensamento lhe surgia: E se no futuro, alguém lançar a moda de calças de montaria feminina?
Ela tinha uma mente avançada para seu tempo.
Era por isso que tanto se interessava pelas novas Ciências que surgiam lá fora, invenções e as tecnologias que diziam haver em Tartária, do outro lado do mundo.

Quando morou na Europa, para estudar Artes, quase visitou a Rússia. Porém, nesse tempo já estava marcado seu casamento, e teve que retornar, não dando tempo de fazer essa viagem.

Os pensamentos mantinham sua mente bem ocupada enquanto cavalgava, e sem perceber, já estava em frente à escolinha.
Ela entrou dando “Bom dia”, e a professora veio lhe receber apresentando-a as mulheres que trabalhavam ali: A professora, a cozinheira Zezé, a faxineira Sandra, e a estagiária da professora, que ajudava na pequena creche: Giselle, filha de franceses, amigos de Amanda Dubois.


Todas muito sorridentes a receberam bem. Apenas Giselle ficou mais calada, talvez com medo de perder o cargo para qual estava sendo preparada: Ter sua própria turminha de alfabetização, no ano seguinte...

Dulcina foi levada por Amanda para conhecer a sala de aula, do último ano primário, onde seria a mestra. Olhando cada detalhe, ficou entusiasmada: Janelas grandes, o que deixava o ambiente bem arejado, piso de madeira corrida, muito limpo.

Uma mesa larga que continha duas gavetas: Uma funda e maior, para cadernos e livros e outra menor, para uma caderneta de anotações e a ficha de chamadas.
Sobre a mesa, o tinteiro de bronze e a pena.
O quadro negro estava atrás de si. E um mural onde os alunos podiam colocar seus trabalhos selecionados como os melhores, ficava do lado esquerdo da sala de aula.
As carteiras escolares eram duplas. Assim a professora poderia colocar um aluno que tivesse bom acompanhamento das aulas, ao lado daquele que tinha mais dificuldade, procurando assim ensinar também a ajuda, o companheirismo, a fraternidade. Ela rapidamente lembrou dos ideais franceses de luta, na Revolução...

Amanda lhe mostrou em que pé estava a turma, mostrando na caderneta de anotações o desempenho de cada uma das crianças e suas idades. Quase todos estavam na faixa dos 10/11 anos.
Apenas, duas meninas tinham idade diferente, uma com já 13 anos, atrasada nos estudos, e outra, em situação bem diferente, com 9 anos, adiantada.
Os meninos eram em número de 8 e as meninas contavam 12.
Esses vinte alunos, eram quase todos, filhos dos senhores das fazendas do café da região.
Nas outras turmas, a maioria era de filhos de trabalhadores das mais diversas áreas: Desde sapateiros, lojistas, alfaiates, marceneiros, cocheiros, etc.
E na última sala, que ficava num anexo externo da escola, era a pequena creche para os pequenos.
Além de no pátio para recreio, ter um balanço e um escorregador, havia a área reservada para as Artes.
Em dias de festa na região, as crianças faziam apresentações de coral, poesia recitada e música da pequena banda.

Dulcina, olhando pela janela, pensou que ali poderia das aulas também de pintura em tela para os alunos, já que sua principal formação era em Artes Plásticas. Falou sobre isso com a professora.
Amanda ficou animada com aquela ideia. Disse que pensaria como fazer, porque teria de providenciar material para tanto...



Dulcina sorriu, e um brilho surgiu em seus olhos. Não seria difícil seus pais conversarem com os fazendeiros da região e conseguir uma boa doação para aquilo...
Ela então disse resoluta:
- Deixe isso comigo, Senhora Amanda, tenho uma boa ideia para arrecadar fundos.

As duas saíram da sala de aula, pois, já era hora do sino tocar. As crianças estariam em fila esperando a entrada. Dona Amanda deu Bom dia e pediu que as quatro turminhas entrassem em silêncio e se dirigissem para suas respectivas salas de aula.

Dulcina ficou curiosa com algo que ainda não havia lhe passado pela cabeça:
Se eram 4 turmas, como antes ela dava conta de passar conteúdo para eles, sendo ela apenas uma?
 A ajudante Giselle, só ficava no apoio durante a manhã, pois na parte da tarde cuidava da creche no anexo da escola...
Perguntou então, para satisfazer sua curiosidade:

- Senhora Amanda, como consegue dar aulas em turmas diferentes, ao mesmo tempo?
- Bem, temos que usar de certos artifícios: A da alfabetização, que é o primeiro ano, dou o conteúdo na primeira hora, e deixo Giselle depois tomando conta, dando tarefas, brincando com eles...
Nesse ínterim nas outras turmas, deixo que façam a tarefa passada no dia anterior, nessa primeira hora, enquanto estou na alfabetização; geralmente, ficam calmos e não dão trabalho, assim, fazem tudo sem atrapalhar as outras classes.
Na segunda hora, quando já entreguei a alfabetização para Giselle, vou para a turma do segundo ano dou conteúdo e tarefa. Corrijo o que foi feito sem mim na primeira hora. Passado esse tempo, me dirijo para o terceiro ano, e faço o mesmo. Quando chego ao quarto ano, eles já fizeram as tarefas e já passaram pelo professor de música.
- Ah, então existe um professor também na escola? Pensei que as aulas de música fossem dadas pela senhora.
- Sim, ele chega às 9 horas. Chama-se Valentim Ferraz. Eu pouco entendo de música, toco piano muito mal...

- Fico feliz então em ajudar aqui, assim essa sua correria vai diminuir um pouco, comigo no quarto ano.
- Ah, sim, com certeza! Bem agora vamos começar as aulas!
- De certo! Estou ansiosa!

As duas entraram nas respectivas salas, e aquele primeiro dia de aula para Dulcina, finalmente começava...
Ela esperou que todos tomassem assento e deu um Bom dia a todos, no que foi sonoramente respondida.
Então, disse serena:
- Sou a nova professora de vocês, e me chamo Dulcina Montes. Sou nascida na Corte, mas, estudei na Europa. Alguém aqui sabe me dizer onde é a Europa?

Uma menina respondeu levantando a mão:
- Eu sei, D. Dulcina! É do outro lado do oceano.
- Muito bem. E qual é seu nome?

- Berenice. Mas, me chamam de Berê.
- E o sobrenome? É importante que saibamos os sobrenomes das pessoas.
- Sou Berenice Castanheira do Vale.
- Agora sim! Então seus pais são portugueses?
- Sim, como descobriu?
- Há muito tempo atrás, em Portugal as pessoas tinham o hábito de usar nomes de árvores ou animais como sobrenome, deduzi pelo seu "Castanheira"...
- Ah, não sabia.

Dulcina sorriu e disse em voz alta:
- Quem tem sobrenome de árvores ou animais, nessa classe, levantem as mãos e digam.

Foi um tal de Laranjeiras, Coelho, Lobo, Figueira, Leão, Palmeira, Limeira, Falcão, etc...
Ao final, Dulcina disse:
- Então aqui temos muitos descendentes de portugueses. Agora, quem tem sobrenome diferente desses?

Apenas 5 levantaram as mãos. Esses eram descendentes de franceses: Vasselot, Bresson, e duas crianças eram de espanhóis e italianos respectivamente: Ortiz e Barbieri.
"Muito bem", disse Dulcina. E continuou:
- Agora que já sabemos suas origens, vamos começar a aula com Geografia. Vamos conhecer um pouco de Portugal e França. Também Espanha e Itália.

As crianças pareciam mesmo interessadas em conhecer suas origens: Ficaram prestando bastante atenção quando Dulcina abriu um mapa da Europa e foi apontando com o dedo, onde ficava cada um daqueles países citados.
Falou do povo, dos costumes e das diferenças que existiam entre eles.
Logo depois, pediu que fizessem pequena redação, falando do que entenderam e que comentassem no conteúdo, alguma característica que viam em suas famílias, daquelas apontadas por Dulcina. Era um resumo básico de tudo.
As crianças não estavam muito familiarizadas com resumos de aula, mas, gostaram da ideia.

Depois disso, pediu que cada uma delas lesse sua redação/resumo em voz alta para que todos pudessem se inteirar dos costumes de cada família, que remetessem suas origens.
O sino bateu enfim, e era a hora da aula de música com Valentim.
Ele entrou e se apresentou para a nova professora da classe.
Dulcina o cumprimentou sorrindo e entregou a turma para que ele começasse sua aula.
Em seguida, foi fazer pequeno lanche na cozinha, pois, já estava faminta, afinal acordara cedo.
Valentim a olhou saindo da sala de aula, interessado na história da jovem, pois, já corria pela região, que ela era já viúva.
Seus olhos brilharam, porque era um espanhol muito conquistador...






Capt 6



As investidas de Valentim começaram no dia seguinte. O espanhol era um homem alto, tinha o cabelo escuro, rosto comprido com um nariz afilado. porém, tinha olhos miúdos.
Não era nem um pouco feio. Despertava olhares femininos a todo instante. Estava na casa dos 28/29 anos. Solteiro por opção.
A vida assim era melhor no seu ponto de vista, considerando que seria infiel a uma esposa se a tivesse, sendo assim, não magoava ninguém...
Desse jeito tinha as mulheres que queria, sem vínculo de aliança no dedo e tudo que com isso vinha no "pacote"...
Ele cantava maravilhosamente bem, era tenor. Veio para o Brasil quando estava com 20 anos.
O motivo de sua vinda era desconhecido.

Um jovem libertino, mas, por outro lado, caridoso e amigável. Quem o tinha como amigo, encontraria horas de boa conversa e risos.
Ao perceber a saída das crianças da sala de aula para o recreio, ele se sentou ao lado de Dulcina na cozinha, para fazer o lanche.
- Como está? Gostou daqui?


- Muito bem, obrigada, e respondendo sua pergunta: Sim, aqui me receberam com carinho, tanto adultos quanto crianças.
- Ótimo, sendo assim, deve ficar um bom tempo dando aulas nesse grupo escolar.
- Certamente. Essa é minha vontade.
- Então, soube que é viúva... Faz quanto tempo?
- Meses.
- E seu coração, como anda, já tem vontade de preencher com um novo amor?
- Não amava meu marido. Nos dois anos de casada só consegui ter por ele, uma boa amizade e respeito.
- Deduzo que tenha sido um casamento arranjado pelos pais... Como sempre nesse mundo!

- Sim, como sempre nesse mundo! Então, agora eu deduzo também, que o professor de música seja contra isso, assim como eu...
- Exatamente! Acho terrível a ideia de alguém casar forçosamente para manter compromissos sociais, familiares ou mesmo econômicos! Passar o resto de sua vida, com alguém que não ama é deveras um sacrifício... Eu não acho que devemos abrir mão de nossa felicidade verdadeira, para cumprir contratos de matrimônio, aliás, por nada e por ninguém.
A alegria de viver deve ser diária. Se ficarmos tristes continuamente, estaremos perdendo o sentido de estar aqui.
- Tem ideias como as minhas! Talvez porque eu e você tenhamos estudado na Europa, enxergamos além das convenções sociais.
- Ah, então ponto para mim!

Dulcina riu e corou. Com um olhar penetrante, perguntou:
- Estamos fazendo algum tipo de jogo a ser pontuado?
- Quem sabe... Depende de uma certa Dona Dulcina Montes, querer participar desse jogo...

- E como seria isso? Com detalhes, por favor.
- Primeiramente, temos 2 peões no tabuleiro, temos 6 cartas para serem sorteadas, cada uma, com um assunto a ser debatido. Em segundo lugar, jogamos os dados e o número que der será o referente à carta. Para a última etapa do jogo teremos uma roleta que dirá se poderemos passar para o próximo nível.
- E qual seria ele?
- Ah, isso seria constrangedor falar nesse momento... É por isso que se tem as etapas do jogo primeiro, para quando chegar ao final do tabuleiro, a intimidade estar maior entre os 2 peões.
- Entendo... Como uma aranha que constrói a teia para fisgar um inseto.
- Diria que como um colibri que tira o néctar da flor, para ser alimentado.
- Hum, poético isso...
- Sou um poeta por natureza.
- Gosto disso, pois, também escrevo lá meus versos.
- Então, estamos começando bem...?
- Sim, estamos.

O sino bateu e interrompeu a conversa no momento certo. Pois, seria um pouco constrangedor seguir daquele ponto...
Dulcina se levantou, sorriu e voltou para a sala de aula. O professor de música seguiu para a próxima turma.
Giselle tinha uma queda por Valentim, assim como todas as mocinhas casadoiras da região.
Ela que já nutria um pouco de antipatia por Dulcina, ficou mais "cabreira", depois que viu Valentim lanchando em plena conversa animada com a jovem viúva.
A inveja e o despeito corroem a alma. E não foi diferente com ela: Giselle começou a arquitetar uma ideia para que Dulcina não tivesse qualquer envolvimento mais profundo com Valentim.

Havia um rapaz também filho de franceses, Jacques, que a cortejava fora dos limites da casa dos pais.
Era o que diríamos algum tempo atrás, um "flerte".
Giselle o provocava, e ele ansiava por tê-la em seus braços em algum momento.

Sabendo disso, e para começar a primeira parte de seu plano, ela deu rede para ele pescar...
Certo dia, quando Jacques a cercou na rua ela enfim correspondeu aos anseios do rapaz:
- Certo, Jacques, aceito que nos encontremos; mas, longe daqui, sem ninguém por perto... Quero me poupar de comentários desse povo.
- E quando será isso? Parece bem difícil...
- Sim, mas, dou um jeito. Mulheres tem perspicácia, meu caro! Quando eu colocar um lencinho verde no meu pulso, poderemos nos encontrar naquele bosque, onde passeávamos quando crianças, perto da ponte, sobre o riacho.
- Então quando te vir com esse lencinho andando na rua, posso te esperar lá?
- Sim, sempre por volta de umas 17:15 hs, porque só saio do trabalho às 17 hs.
- Oh, que maravilha será, poder beijar esses seus lábios convidativos!
- Guarde essa ansiedade para depois...



Ela jogou um beijo no ar e se afastou, toda fagueira e rebolativa (aprendeu com as mucamas de sua casa), provocando ainda mais aquele jovem que tinha já os hormônios à flor da pele.

Não demorou muito para que seus planos dessem certo, e depois de um mês e meio, de encontros escondidos com Jacques, eles finalmente foram as vias de fato. E várias vezes, numa época em que não havia preservativo, Giselle acabou por engravidar. Quando faltou a menstruação e sentiu-se enjoada, soube que havia acontecido o que ela queria.
Agora era agir a segunda parte de seu plano:
Atrair Valentim para um momento íntimo consigo.
E depois, dizer que ele era o pai de seu filho.

Cerca de uma semana depois, quase que isso aconteceu:
Valentim que não negava fogo, e não podia ver um rabo de saia, querendo lhe dar o que queria, viu-se deitado na relva do campo, com aquela mocinha desvairada que durante dias se insinuou para ele.

Entre beijos e carícias eles se despiam... Contudo, quando o ato sexual teve início, ele se conteve ao ouvir o som de cavalos chegando, e não ejaculou.
Ela se vestiu o mais rápido que pode, assim como ele. E fingiram passear pelo bosque, quando uma carruagem toda pintada em vermelho, passava por ali.
Depois disso, Jacques que era um tanto supersticioso, achou que era um sinal, e daquele dia em diante, evitou qualquer aproximação maior com Giselle.
No entanto, ela estava satisfeita: Agora poderia completar a fase final, que seria dizer aos pais, que o professor de música da escola, a havia engravidado.
 Não tardou para que Valentim fosse chamado à casa dos Vilesganion. Sem imaginar sequer o motivo, ele foi como se faz uma visita qualquer...
Ao chegar depois de acomodar-se no largo sofá, os pais da jovem serviram um licor de cacau e depois, começaram a falar... Então, ele foi surpreendido pela notícia da gravidez de Giselle!
"Não!"
Ele disse...

"Não fui eu, com certeza! Sua filha já não era mais donzela quando estivemos a sós, e posso garantir que nem sequer terminei o que estava fazendo... Pois, um coche apareceu e nos arrumamos rapidamente..."

O pai de Giselle contrariado com a acusação de que sua filha não era mais virgem, quando se deitou com Valentim, exigiu que ele se retratasse.
- Como diz isso de minha filha?  Uma jovem de família, que vai da casa para o trabalho e do trabalho, para casa... Exijo que se desculpe com ela, e faça o que tem que ser feito!
- Como assim, o que tem que ser feito? Não sou o pai do filho que ela espera!
- Acho que teremos que resolver isso então, com as autoridades...
- O senhor está me ameaçando?
- Estou lhe dando a chance de não ter que ir ao juiz, para sua vergonha social.
- Pois muito bem, caso com sua filha. Mas saiba que ela nunca será feliz comigo, e essa criança não me verá como pai, porque sempre direi a verdade.

- O futuro dirá se suas palavras serão as mesmas... Agora vamos acertar o dote e o casamento, e que seja o mais rápido possível. Não quero que falem da honra da minha filha. Quando a criança nascer, dirão que é prematura e pronto! Vamos fazer tudo nos conformes, com festa e tudo.
- Pois bem. Vamos tratar isso logo. Tenho que mudar muita coisa em minha vida, depois que sair daqui...

Por meia hora trataram o valor do dote e data do casamento. Quando se falou na festa e em quem convidar, Valentim, apenas disse:
-  Chamem quem quiser, não me importa! Façam como bem achar essa tal festa... Nada disso estava nos meus planos mesmo...
Giselle permaneceu calada o tempo todo. E quando Valentim se levantou para sair, disse que iria acompanhá-lo até a porta.
Ele fez um gesto com a mão sinalizando para que ficasse onde estava, e saiu sem dizer mais nada.



Seus cortejos à Dulcina pararam repentinamente. Ela estranhando, lhe perguntou no recreio, como de brincadeira (dois dias depois da conversa na casa de Giselle):
- Senhor Valentim, o que ocorre? Já não sou mais interessante?
- Quem me dera fosse isso, Dulcina, seria bem mais fácil!
- Vejo que anda preocupado há uns dois dias, cabisbaixo... Não é do seu feitio. Pode me contar o que está lhe consumindo?
- Fui vítima de uma farsa que Giselle arquitetou, e que agora me prende ao seu lado...
- O que está me dizendo? Será que é o que imagino?
- Acho que sim, se imagina que terei que casar-me com ela...
- Oh, meu Deus! Conte-me a sua versão.
Ele então narrou tudo que houve. Ficando um pouco constrangido de mostrar sua incapacidade de segurar os impulsos da carne... Porém, mostrando ser sincero do começo ao fim, pelos sentimentos que nutria por Dulcina, e não por Giselle.


Dulcina, absorvia o relato como se passasse a cena em sua mente...
Quando Valentim terminou, ela segurou sua mão e disse serena:
- Tudo se resolve nessa vida. Acredito em destino, e se isso foi posto em seu caminho, tem que haver motivo. Existe uma Lei Divina e essa ninguém escapa! Pode ser seu teste para se redimir de tantos corações que pode ter deixado desconsolados...Ou uma missão a ser cumprida.
Claro, que se não tivesse se rendido aos impulsos... Mas, não posso julgar um homem, é uma questão hormonal... Aliás, não julgo ninguém, para também não ser julgada.
- Dulcina, vejo que é uma jovem sábia. A minha atração por você, era maior do que a minha observação. Contudo, agora a esperança do seu amor, já não tenho... Em dias, serei um homem casado, e tenho que esquecer esse sentimento que nutro por você.
- Também começava a nutrir um carinho mais especial por você, embora não saberia dizer, se isso era amor... Temos que esquecer. Seremos bons amigos a partir de agora.
- Sim, é o que nos resta, uma boa amizade...

Dulcina, se despediu e voltou para a sala de aula. Ela deixou cair uma lágrima e disse a si mesma, que não tentaria amar alguém tão cedo...

Giselle no meio daquela semana, contou à todos no trabalho, que se casaria com Valentim. O que pareceu surpresa para cada pessoa ali, todavia, ninguém fez algum comentário sobre isso.
Valentim, de braços cruzados, encostado à uma parede, permaneceu calado, enquanto ela recebia os parabéns.
Dulcina manteve-se também distante, ocupando-se de corrigir os cadernos das crianças, para não ter que parabenizar Giselle.

Dez dias se passaram e o matrimônio foi realizado.
Valentim levou Giselle para morar consigo, numa casa que comprou com o dote que recebeu.
Jacques ao saber do casamento de sua querida Giselle, ficou desnorteado e quase impediu a cerimônia, não fosse sua mãe aconselhá-lo a esquecer aquela jovem.
No entanto, ele a queria e isso foi sua ruína.

Bebeu naquele dia, e na noite seguinte, e nos meses que se seguiram, até que soube que Giselle havia tido um bebê, naquele dia.
Ele mentalmente fez as contas, e achou que o filho poderia ser seu.
Então, munido da falsa coragem que a bebida dá, foi até a casa de Valentim, que estava na escolinha dando aula.
A mucama de Giselle abriu a porta, e disse:
- O que o moço deseja? A sinhazinha não quer o senhor por perto, ela me pediu para dizer isso, se viesse aqui.
- A sua sinhá, sabe exatamente porque eu vim. Posso ser o pai dessa criança que ela teve!
- Fale baixo, moço. Assim vai deixar mal a sinhazinha! Vai embora, vai...
- Diga ela que vou voltar quando o marido dela estiver em casa, vamos conversar os três!
- Vai logo, moço, anda, está bêbado e não sabe o que fala...
- Vou, mas, volto!



Jacques saiu cambaleando e não viu quando um cavalo desgarrado do coche, vinha em sua direção. Em segundos, ele o atingiu, e levado ao chão, bateu na dura perda do calçamento, o sangue derramou rápido e a morte foi instantânea... E foi assim, que a palavra ficou muda, e Valentim perdeu a chance de saber a verdade.















Capt 7



Paralelamente à tudo isso, os cafeicultores estavam preocupados, pois o desgaste do solo logo aconteceria. Sendo assim, o café da região do Vale do Paraíba diminuiria em poucos anos...
Miguel, pai de Dulcina andava com isso na mente. Já estudava uma nova cultura para dividir pelas terras de sua fazenda. Sabia que assim como ocorreu com a cana de açúcar, aconteceria com o café também.
Dulcina estava feliz com o trabalho na escola, conseguira a contribuição dos fazendeiros da região para a compra do material de Arte. E quando as telas, pincéis e tintas chegaram, todas as crianças festejaram. Com essa atividade a mais, ela se distraia e esquecia um pouco de Valentim, mesmo diariamente convivendo com ele na escola.



Com a repentina notícia do nascimento da criança que Giselle esperava, pois, que para a sociedade local era um prematuro, Dulcina manteve maior o distanciamento, pensando que Valentim já mantinha uma relação íntima com Giselle, mesmo a cortejando, sendo assim, havia mentido...

Cerca de um dia depois que Jacques morreu, Giselle foi acometida de um remorso muito grande: Porque não havia lhe atendido, e em consequência disso, foi embora e acabou morrendo na rua.
Cenas vinham em sua mente. Relembrava os momentos que passaram juntos por quase dois meses, praticamente todo os dias...
Sentiu-se mal, a cabeça doeu, o sangue que veio depois do parto se transformou em hemorragia, uma febre se instalou em seu organismo, e dois dias depois, mesmo com os cuidados de um médico renomado, Giselle morria também.

Valentim providenciou tudo ao lado dos pais de Giselle para o funeral. Logo depois, ao voltar para casa, e olhar no berço, a doce bebezinha que havia nascido naquela mesma semana, não se conteve e chorou.
Sim, Dulcina estava certa quanto ao destino: Não sabemos o porquê das coisas, mas, tudo tem um motivo. E agora compreendia que era a vontade de Deus que ele cuidasse daquela menininha.

Percebeu então, que com tudo que houve, ainda não tinha escolhido o nome para a criança.
Resolveu dar-lhe o nome de Alícia.
E ao escolher alguém para ser madrinha, pediu para que Dulcina lhe desse essa honra.
Ela queria dizer sim de imediato, todavia, ainda nutria aquela dúvida, quanto a menina ser filha dele ou não, e perguntou:
- Preciso saber uma coisa antes de aceitar... Fale com franqueza: É o pai de Alícia?
- Não, já te disse que ela armou tudo isso. Não sei e nem desconfio quem seja o pai dessa menininha. Contudo, se Deus colocou a criança no meu caminho, farei o papel na vida dela, do pai que ela precisa!
- Muito nobre da sua parte! Então sendo assim, e confiando na sua palavra, serei a madrinha.


- Fico muito feliz com isso, Dulcina! A bebê terá a melhor madrinha que uma criança sem mãe, poderia ter...
- E quando vai ser o batizado, já pensou?
- Daqui a um mês e meio, vou deixar passar o luto da família de Giselle.
- Certamente. Enquanto isso, conte comigo para o que precisar.
- O que preciso de imediato é de uma ama de leite, conhece alguma mucama que possa ser?
- Vou ver na fazenda de meu pai se encontro alguma que esteja amamentando e lhe trago aqui. Mas, o ideal era que ela ficasse direto, pois, Alícia precisará de alimento a cada 3 horas...
- Sim, nesse caso, a mucama que achasse traria o filho também para amamentar.
- Exatamente isso, que estou querendo lhe dizer!
- Pois, que seja! Encontre uma, e traga com filho e tudo, o importante é que venha logo, pois, Alícia está tomando apenas leite de vaca...
- Certo, vejo isso logo para você.
Despedirem-se. E depois da aula, Dulcina já na fazenda, enviava sua mucama particular, para procurar outra, que estivesse amamentando nos arredores.
A escrava Jacinta tivera uma criança cerca de um mês antes. Ela foi levada então à casa de Valentim para ser a ama de leite de Alícia.
E dois meses depois, na capelinha da fazenda de seu pai, Dulcina batizava Alícia, juntamente com o melhor amigo de Valentim: Alcides Valente de Cascais.
A festa do batizado foi do lado de fora da capela, com muitas mesas brancas decoradas com laçarotes cor de rosa. Havia uma mesa bem maior, com o bolo, (que Dulcina depois de declamar uma breve composição sua poética), cortou em seguida.
Palmas foram ouvidas.
Dulcina tomou Alícia no colo, como se ela fosse mesmo sua, e beijou-lhe a testa dizendo em seguida:
- Que Deus te abençoe, preciosa criaturinha...
Valentim mesmo não sendo o pai daquela menina, estava cada dia mais apegado. Dulcina também.
Não demorou muito para que Valentim tivesse finalmente a ideia de pedir Dulcina em casamento, assim, tudo se ajustava: Era o destino fazendo seu trabalho...
A decadência do café na região do Vale do Paraíba começou mesmo naquele ano.
O pai de Dulcina, que havia já começado um novo cultivo, o do feijão, sabia que não daria para ter lucro imediato. As despesas estavam aumentando e o dinheiro que entrava, era praticamente para cobrir as despesas da casa grande, manter os empregados imigrantes pagos, e também os escravos da senzala.
Quando Valentim foi à fazenda Figueira da Foz para pedir Dulcina em casamento, a situação era essa.
Valentim queria ir embora para o estado da Bahia, onde muitos compatriotas moravam, e alguns eram familiares.
Miguel então lhe perguntou:
- Senhor Valentim, se quer casar com nossa Dulcina, isso ficará por conta dela, já que é viúva, mas, quero lhe perguntar: Com essa sua intenção de ir para a Bahia, como vai se manter até se empregar, ou já tem algo em vista?
- Tenho alguns parentes naquela região, e já lhes escrevi. Um primo de primeiro grau, tem uma fazenda de cacau começando o cultivo, e quer que eu seja o administrador, pois tenho mais estudo que os demais parentes que moram lá.
- Ah, sim... E o senhor por certo, vai morar nessa mesma fazenda...
- Sim, exatamente. Eu, Alícia, e Dulcina se aceitar casar comigo.
- Muito bem, parece que tem tudo muito bem pensado! Eu dou minha bênção. Agora é com minha filha...

Praticamente ao pronunciar essas palavras, Dulcina entrava conversando alegremente com sua mãe. Não sabia o propósito de Valentim estar ali, já que pela tarde tinha visitado sua afilhada, na cada dele.
Valentim não havia mencionado que lhe faria uma visita à noite.
Perguntou ao vê-lo:
- Valentim, que surpresa! Não me disse que viria...
- Era para ser mesmo uma surpresa. Quero agora, frente aos seus pais, pedir-lhe em casamento. Ambos somos viúvos, e não há nada que impeça, a não ser que não queira. Mas, desejo do fundo do meu coração que sua respostar seja positiva!
 Ela rodeou a mesa, passando o dedo indicador, na superfície do móvel, sem nada responder.
O olhar de sua mãe Heloísa, era de expectativa. Claro, de Miguel também. Contudo, o mais interessado mesmo na resposta, era Valentim.
- Senhor Valentim, tem ideia do que está me propondo? Amo Alícia, mas, querer-me como esposa, somente para dar-lhe uma mãe, não seria um pouco forçado?
- Oh, não, Dulcina! Sabe que nutro um forte sentimento por sua pessoa há muito tempo... Antes mesmo de me casar forçosamente com Giselle, você sabe, não me diga que não lembra?
- Sim, eu sei.
- E então, o que me diz?
- Aceito, com uma condição: Que eu leve junto para onde formos, o meu bom Joaquim, e a mucama que aqui me acompanha, a Filó.
- Mais alguém?
Ela riu, e disse:

- Se eu fosse levar todos que queria ao meu lado, teria que buscar na Corte, as duas mucamas que deixei em minha casa, e também a ama de leite de Alícia, com seu filho.
- Bem, quando perguntei isso, realmente não contava que mencionasse mais ninguém; A fazenda é de meu primo, não posso carregar tanta gente para lá, só se fosse minha.
- Ah, então vamos para uma fazenda... O café anda “mal das pernas” ... Até aqui na Figueira da Foz, meu pai já começou com a cultura do feijão...
- Não é uma fazenda cafeicultora. É de produção do cacau, na Bahia.
- Cacau, Bahia?
- Sim, espantou-se, por quê?
- Nossa, não esperava partir para o nordeste! Dizem que é muito mais quente que aqui no Sudeste!
- Certamente que sim. É bem mais quente, mas, a senhora veio da Corte, e lá também faz muito calor!
- O Rio de Janeiro, aguentamos pela beleza...
- Isso significa que vai desistir do casamento somente pelo calor da Bahia?
- Não, claro que não! Eu seria muito fútil se desse isso como motivo de desistência. Caso-me sim, com você, Valentim. Ora, até rimou!
-Que maravilha, então agora só falta resolver todos os trâmites, data e padrinhos.
- Sim, mas, digo logo que de minha parte, quero a professora Amanda Dubois, como minha madrinha.
- Então escolho o padrinho: E será o mesmo de Alícia. Pois, aqui não tenho amigos de verdade, além dele.
- Pois, para mim está ótimo!
Os pais de Alícia estavam contente e felicitaram o novo casal que se formava. A data foi escolhida e o padre foi chamado dois meses depois, para realizar o matrimônio na capelinha da fazenda.
Era uma manhã bonita e o sol enviava seus raios sobre o verde do gramado onde estavam as cadeiras, mesas e o gazebo, onde a cerimônia seria realizada.
Dulcina e suas colegas de trabalho na escola, cuidaram da arrumação do lugar. Elas fizeram questão de cuidar dos doces, pudins e do bolo de casamento onde um laço enorme o circulava, fechando com um arranjo de flores artificiais, mas, muito bonito.
E no alto do bolo, imponente, estava o casal de noivos em louça portuguesa. Era o mesmo do casamento de seus pais.
Valentim comprou novas alianças, nunca pensaria em se casar com as do casamento anterior. Afinal, Dulcina merecia até uma maior do que a que deu à Giselle!

O matrimônio foi realizado pelo padre Carlos Milani, pároco das terras vizinhas, onde havia uma pequena colônia italiana.
Estava tudo muito lindo naquele dia, e Alícia deu seus primeiros passos nessa mesma manhã. Ria e batia palmas, para ela, Dulcina era a mãe que conhecia.
Cerca de dois meses depois, Dulcina se despedia dos pais e colegas de trabalho, para seguir rumo à Bahia com seu novo esposo e Alícia. Levava consigo Joaquim e Filó.


O que esperava ao grupo, eram terras que nunca haviam visto, modo de falar tão diferente, mas, gostoso de se ouvir, além de comidas regadas ao azeite de dendê, muita pimenta e temperos quentes.


Uma batida de atabaques, baianas rodando em suas saias brancas e rendadas, depois, gingados de capoeira, ao som do berimbau, foram as boas vindas que ela encontrou na fazenda de cacau do primo de Valentim.
Era uma nova vida que começava...



Capt 8


O primo de Valentim era um espanhol muito loiro, ou seja, em termos dos nossos nordestinos, chamado de galego.
Recebeu muito bem a todos, entretanto, ao perguntar por que haviam trazido escravos, se na fazenda já havia muitos, Dulcina apressou-se em responder:
- Senhor Gonçalo, esses são meus serviçais exclusivos, e não abriria mão deles. Não são mais escravos, pois, lhes dei a liberdade. Aliás, sou abolicionista!
Tenho horror à escravatura! E se lhe choco ao dizer o que penso, sinto muito, começamos mal...

Ele olhou espantado para Valentim, que sorriu dizendo:

- Não se espante, primo. Dulcina está acostumada a dizer o que pensa, doa a quem doer.
Mas, é o gênio de brasileira, filha de portugueses. Gosto desse jeito impetuoso.
- Certamente que gosta! Conheço bem seu gênio também.
Foi a vez de Dulcina olhar interrogativa para Valentim.
- Não, primo, de certo que não sou mais aquele que conheceu em Barcelona.
Um mistério pairou no ar, e Dulcina aguçada em seus instintos femininos, sabia que havia algo no passado de Valentim que ele nunca lhe havia mencionado. Todavia, com o passar de mais um tempo, ela descobriria...
Alícia que estava em seu colo, ficou sonolenta, e Dulcina pediu que alguém lhe mostrasse o quarto para levar a menina e colocar para dormir. Atrás dela, vinha Filó. Dulcina virou-se e segurando sua mão, disse com a voz num tom mais alto do que usava:
- Caminhe ao meu lado, Filó. Você não é mais escrava.
Valentim sorriu e Gonçalo também.
“Os grilos das fazendas de cacau pareciam gritar, não eram como nas fazendas do café”, pensou Dulcina.
A noite descia, com um céu coberto de milhões de estrelas e a lua tinha um tom laranja dourado, diferente da cor prata que se conhecia...
Dulcina pode notar a diferença logo que olhou para fora da janela, respirando o ar da noite.  Contudo, não pode ficar nessa contemplação do céu, porque os insetos, ou muriçocas como chamavam ali, estavam entrando e picando seu rosto.
Saiu de onde estava e puxou aquele desconhecido mosquiteiro (pois era maior que qualquer outro que pudesse ter visto) sobre o berço que já dormia sua afilhada.
Valentim que demorava a subir para o quarto, ficara na sala se inteirando dos afazeres que lhe aguardava no dia seguinte.
A sala parecia um museu do século XVIII, e um enorme São Jorge, de bronze, tinha seu lugar especial sobre um móvel gigantesco de madeira talhada com lindos desenhos.
No canto havia um piano, e do outro lado dessa sala, tinha uma porta que dava para um salão, onde podia ser vista uma mesa com doze cadeiras, para jantares formais.

Dulcina já estava adormecida, quando finalmente Valentim foi se deitar.
Ele deu beijo em sua face, puxou o lençol e fechou os olhos, no entanto, não conseguia dormir:
A viagem e tudo mais, estava muito recente em sua mente, e repassava, cada momento até ali.
Teria que conversar com Dulcina sobre o modo de ser dos nordestinos, pois, tudo pareceria bem diferente para ela, pelo menos no início...
Claro, para ela, a vida foi feita de mudanças: Foi estudar cedo na Europa, voltou aos 18 anos para a Corte, e já se casando; Depois, enviuvara, foi para o interior paulista, numa fazenda de café, trabalhou como professora, depois se casou novamente, e se viu levada para o interior da Bahia...
Agora, era se habituar aos costumes daquele lugar.
Mas, ele sabia: Ela tinha muita força dentro de si, aquela não era uma nova aventura e sim, “A AVENTURA.”

Os dias foram passando e Dulcina cada momento tinha uma surpresa com as diferenças entre a vida na região cacaueira da Bahia, a da Corte, e do interior cafeicultor paulista.
A começar pelos chamados sapos boi, que eram animais repugnantes de olhar, e que à noite estavam em toda parte:
Fosse no terreno grandioso visto da janela, ou na varanda da casa grande para lhe dar um susto.
As histórias folclóricas eram muitas. A Bahia tem dessas coisas (ou tinha) porque o mundo atual é diferente, e muito do folclore foi esquecido...
Isso, devido à crenças que algumas igrejas passaram, pois, o que é místico deveria ser calado, e assim, a voz das histórias do povo, quando se falava de sacis, Iara dos rios, curupira, o lobisomem, ou qualquer entidade folclórica, foi sumindo e no século XXI, o que era chamado de folclore popular (e que tem ainda um dia a ser comemorado), foi ficando cada vez mais esquecido e quase apagado dos livros brasileiros.
A cultura de um povo, que tinha centenas de anos, foi sendo excluída do convívio das crianças/estudantes...
O Saci Pererê que era o símbolo do nosso folclore em muitas regiões do país, ficou esquecido neste século, em alguma prateleira que mantém ainda livros antigos...
No entanto, nesse tempo que a trama acontece, ele e seus companheiros (há outros nomes de sacis) estavam bem vívidos nos contos do povo, que se reunia em volta de fogueiras no comecinho da noite, para contar essas lendas e também as populares de espíritos/fantasmas/aparições.

Certa noite assim, que o céu estreladíssimo enchia os olhos, Dulcina com Alícia no colo, Valentim, Gonçalo, Joaquim e Filó, foram ouvir as muitas lendas da Bahia.
Algumas seriam mesmo da região cacaueira, outras tantas foram passadas pelos viajantes que pediam abrigo e por ali passavam, contando coisas que “ouviram dizer” em outros cantos...
Era um mistério que ficava na cabeça das pessoas:
Quem inventava tudo aquilo, ou seria mesmo verdade? Será que alguém havia visto o redemoinho vindo com o saci dentro?
Será que o sétimo filho de um casal que teve seis filhas, viria a ser um lobisomem?
Um rapaz parecia ser, pois, em noite de lua cheia, caindo numa sexta-feira, ele sumia, e voltava com a roupa suja de sangue e rasgada. Parecia realmente um bicho... Todavia, no dia seguinte, já banhado e de roupa trocada, com certeza, seria considerado um lorde inglês.
Nenhuma mocinha casadoira chegava perto dele, por mais dinheiro que sua família lhe deixou.

Quem queria viver com um lobisomem e ser possivelmente atacada numa sexta feira de lua cheia? E ter filhos? Não, nenhuma arriscaria tal coisa!
Ele era um solitário. Mas, essa história aguçou a ideia de Dulcina, que pediu à Gonçalo para que o convidasse para o almoço de domingo, por ocasião da Páscoa.
O primo de Valentim, achou essa ideia inusitada, mas, sem querer contrariá-la, fez que sim. Afinal, não iria se indispor com aquela mulher de gênio forte, e ao mesmo tempo, encantadora.
Ela sorriu satisfeita e continuou a escutar as outras lendas.
Alícia enfim dormira em seus braços e ela assim, despediu-se de todos e a levou para o quarto. Filó que a seguia, arriscou:
- Sinhazinha consegue tudo com o senhor Gonçalo... Ele parece ter medo da senhora.
- Nada! Ele me respeita, porque tenho ideias inovadoras. E assim, ele vai me analisando... Somente isso.
- Mas, o que é analisar, sinhazinha?
- É como perceber meu modo de ser, minhas intenções, se sou esperta, se sou sonhadora, coisas assim...
- Ah, sim. Agora entendi. A sinhazinha explica essas palavras complicadas da Corte, tão bem, que a gente entende.
- Essa é minha intenção, fazer compreender o que digo, de modo fácil.
- Então, a sinhazinha faz muito bem!
Filó deu um sorriso largo e mostrou aqueles dentes tão alvos, quanto um lençol de linho branco, no varal.
Dulcina retribuiu o sorriso, e disse falando baixinho:
- Shhhh, Filó! Vamos abaixar o som da nossa conversa, caso contrário, Alícia acorda.
- De certo, sinhá! Se a senhora não precisa mais de mim, vou me deitar.
- Vá, Filó. Boa noite e durma bem.
- Igual para a senhora.
- Diga então, igualmente, fica melhor.
- Igualmente.

Filó fechou a porta, quase sem fazer ruído e abençoou sua sinhazinha, que cada dia lhe ensinava coisas novas e que tinha o coração maior que toda aquela terra cheia de cacau.

Capt 9

O engraçado da vida é que por mais que se esteja apaixonado por uma mulher, algumas vezes o homem cai na tentação da carne.
Os medos de Dulcina vieram à tona, quando Valentim começou a fazer algumas viagens pelos vilarejos. Geralmente, dava alguma desculpa, que parecia plausível, mas, havia momentos que ele se retirava para esses locais, sem desculpa mesmo...
Filó alertou sua Sinhazinha, como quem queria dizer, mas, não ia direto ao ponto:
- Sinhazinha Dulcina, não vai com o patrão nas viagens por quê? Fica aqui toda triste, quando ele se vai...
- Pois é, já pensei em ir. No entanto, nada disse, pois, carregar Alícia junto nessas paragens, talvez não fosse bom para a menina. Há lugares que mal se tem água!
- Sei lá, Sinhá... Pelo menos uma vez, acho que deveria ir, para o patrão não parecer solteiro, desimpedido... Tem muita mulher “dando sopa” por aí.
- Sim, eu sei.Valentim é bonito, charmoso e... Conquistador!

Uma repentina ideia de traição por parte de seu esposo, se instalou em sua mente.
Ele continuava carinhoso, mas, cada vez mais arruma essas viagens. Talvez teria de ter uma conversa com Gonçalo, para saber se um administrador saía tanto da fazenda para resolver negócios. Embora soubesse também, que os homens eram cúmplices uns dos outros, contudo, confiava na integridade daquele homem.
Claro que ela nada diria sobre suas informações, com Valentim.
O diálogo foi realizado quando Dulcina, sentada tomando o ar mais fresco do fim de tarde, e olhando Alícia brincar com uma boneca de pano, viu Gonçalo chegando a cavalo.
Ela o chamou para sentar e tomar um copo de suco de goiaba, e com toda sutileza foi entrando no assunto:
- Gonçalo, conhece o local por onde anda Valentim nesse momento? Gostaria muito de saber como é, se tem pelas paragens, se seria um local adequado para levar Alícia comigo, e conhecermos...
- Hum, na verdade nada sei sobre o povoado de Milagres.
Acho até que lá não existem cacaueiros. Valentim disse que iria receber uma carga que vinha no trem. Agora carga de quê, eu não sei...
- Mas, não foi então pelo trabalho administrativo da fazenda?
- Não, dessa vez. Mas, algumas vezes sim: Ele visita povoados para arrumar sacas para o cacau, e despachantes para os trens e navios.
- Então, porque foi nesse povoado tão longe daqui?
- Como disse, não sei.
- Gonçalo, se soubesse de algo sobre Valentim e outras mulheres, com sinceridade, me diria?
- Bem, Dulcina, nós homens costumamos nos defender, no entanto, se soubesse algo, lhe diria sim. Não acho justo com sua pessoa, que Valentim lhe dê esse desgosto; ainda mais, depois que aceitou ser a mãe do filho dele, com a primeira esposa.
- Ah, então não sabe que Alícia não é filha dele?
- Como disse?
- Ela não é. Giselle teve um caso com outro homem, de quem engravidou, e pôs a culpa em Valentim, fazendo seus pais acreditarem nisso, e levando até o matrimônio.
- Ora, ora... Ele aceitou tudo isso... Eu não aceitaria.
- Cada um pensa de uma maneira. Eu me apegando à menina, me tornei madrinha, e agora mãe. Amo essa menininha como se tivesse saído de dentro de mim!

Ela disse isso com os olhos marejados, e Alícia parecendo entender o que Dulcina dizia, sorriu jogando um beijo com a mãozinha.
Gonçalo admirou mais ainda a mulher que lhe falava. E pensou como Valentim tinha um tesouro em sua vida, e talvez não estivesse dando o devido valor...
Gonçalo pegou a mão de Dulcina, beijou e disse em seguida:
- Com sua licença, minha “prima”, porque agora vou me banhar, o dia foi muito quente. Ainda bem que no fim de tarde, temos essa brisa!
- Com toda certeza que foi! Contudo, já estou me acostumando com o clima daqui. Sim, o finzinho da tarde é delicioso, e por isso, ainda ficarei mais um pouco aqui com Alícia.
- Então, até a hora do jantar.
Ela fez que sim com a cabeça, e deu um aceno assim que ele entrava porta adentro.
Dulcina olhou aquela vastidão de terras, e de repente, lembrou-se da fazenda Figueira da Foz de seus pais.  E uma coisa levando a outra, decidiu que pela manhã, escreveria uma carta para eles.
Na verdade, faria duas cartas: Uma para eles, e outra endereçada à suas inquilinas da Corte do Rio de Janeiro, pois, fazia uns três meses que não recebia o dinheiro do aluguel, que vinha pelo correio.
Ela queria saber o que estava havendo, pois, até então, nunca deixaram de pagar, mesmo quando ela estava em Taubaté, o envelope chegava com o pagamento.
Isso a intrigava, porque não enviaram tampouco uma carta de desculpas, uma satisfação pelo atraso...
A sua mente já corria a pensar nas duas mucamas queridas, que lá ficaram para servir às inquilinas...
O que estariam passando? Talvez até fome, quem sabe...?

A história veio ter em seus ouvidos, quase um mês depois de enviar a carta para suas inquilinas:
Madrinha e afilhada foram vítimas de um acidente na estrada. Os cavalos do coche que viajavam para Petrópolis, desgovernados (o cocheiro tivera um mal súbito, talvez um ataque cardíaco), caiu num precipício, e todos morreram na tragédia.
Mas, a resposta não veio da Corte, e sim da carta que enviara a seus pais, pois, as duas mucamas, sem saber o que fazer, acharam melhor enviar um mensageiro para a fazenda em Taubaté, e aguardar resposta.
A mãe de Dulcina respondeu a carta, já comunicando o que acontecera com as inquilinas do Rio de Janeiro. Heloísa concluiu a carta assim:
E para finalizar minha filha, as duas mucamas não sabem o que fazer. Pois, guardam sua casa com carinho, mas, preocupadas de invasão por parte de pessoas que não tem tanta consideração com os negros, quanto você. Acham que podem ser vítimas de assalto também, já que em sua casa há muitas coisas de relativo valor...
Quer um conselho, Dulcina? Volte à Corte o mais rápido que puder, e resolva a situação do que vai fazer com a casa e com suas mucamas.
Com amor de sua mãe:
Heloísa.
Ps: Seu pai envia lembranças a você e Valentim, e um beijo para Alícia.

Dulcina respirou fundo depois que leu a carta. Claro, teria que ir à Corte, e levaria bastante tempo pois, faria dois trajetos: Uma parte de carruagem, outra de trem.
Primeiro, pediu que seus pais enviassem algum dinheiro de volta pelo mensageiro, confiando na sua integridade, para que ele desse às mucamas, pois, poderiam estar passando já grandes apertos e até fome.
Depois, prepararia sua viagem. Com certeza viajaria com o bom Joaquim, e deixaria Alícia com Filó, poupando-a de uma viagem tão absurdamente longa, para uma criança pequena.
Caso Valentim quisesse acompanhá-la, seria melhor, mas, se ele viesse com desculpas, ela não se importaria... As coisas já não eram mais as mesmas, porque a semente da dúvida sobre a fidelidade de Valentim, estava plantada em sua cabeça.

O itinerário fora traçado e as passagens de trem compradas somente para Dulcina e Joaquim.
Como esperado, Valentim alegou que sua ausência por tanto tempo, seria ruim para a administração da fazenda cacaueira.
A fazenda situada entre Ilhéus e Itabuna, não tinha tanto renome quanto à Fazenda Provisão*. Sendo assim, a concorrência era grande, e não poderia deixar negócios pessoais de Dulcina, atrapalhar o andamento de seu trabalho.
·         Nota do link:
*Em 1885, o Coronel Domingos Adami de Sá, em partilha de herança, assume o seu quinhão composto por terras produtivas de cacau e terras incultas, dando-lhe mais tarde o nome de Fazenda Provisão.
Atualmente a fazenda está em mãos da 4ª geração dos seus descendentes, que abre o belo casarão para receber turistas interessados em conhecer a propriedade.


Os dias se passavam e Dulcina já se remoía de saudades de Alícia.

Em um instante de introspecção, ao olhar pela janela do trem, ela percebeu que não sentia tantas saudades de Valentim dessa forma. Talvez seu coração estava se resfriando em relação ao marido...
Decidiu não pensar mais sobre isso, até estar novamente com ele.
Chegando à Corte, reparou inovações nas ruas, talvez o Imperador Pedro II, estivesse trazendo mais beleza também a uns locais que precisavam, por certo.
Ela ainda relembrava a noite em que o conheceu:
E que se falava das mais novas invenções dos EUA e da Europa...
“Sim, ele era um homem admirável, bem à frente de seu tempo!” Pensou.

O coche parou frente à sua casa no bairro de São Cristóvão. O portão estava levemente aberto. Coisa que não acontecia...
Reparou em dois guardas na porta da casa. Estranhando, e já preocupada com o que seria, apressou o passo para perguntar.
- Boa tarde, senhores. O que desejam aqui em minha casa?
- Boa tarde, senhora. Fomos chamados por suas mucamas, pois, bandidos roubaram sua casa, nesta madrugada. Elas estavam apavoradas, pediram que aguardassem seu retorno, e que seria ainda hoje.
- Sim, enviei um telegrama avisando a data de minha provável chegada. Mas, elas estão bem, os ladrões bateram nas pobrezinhas?
- Não se preocupe, elas vão melhorar, foi superficial: Apenas uns arranhões e hematomas...
- O que está me dizendo? Então elas apanharam mesmo?
- Sim, era de se esperar, pois, uma casa guardada apenas por duas ex escravas... Homens que não tem escrúpulo algum, tomam da fragilidade e da condição de mulheres assim, para mostrar força e poder...
- Temia exatamente isso... E no geral, o que levaram afinal? Não que eu me importe muito com isso, porque para mim, o fator humano é o que interessa.
- Bem, na nossa averiguação pela manhã, soubemos que faltam peças de bronze e prata, e alguns quadros de pintores conhecidos. Tem que ser tudo registrado, mas, não por elas, e sim pela senhora.
- Claro, claro. Hoje me instalo e cuido delas, amanhã irei com a lista do que eu souber que está faltando no posto da guarda.
- Sendo assim, vamos lhe deixar. Qualquer coisa, mantenha seu criado de guarda frente à casa durante a noite.
- Sim, ele está cansado da viagem e já não é jovem, mas, sei que ele nos guardará.
- Então, até amanhã, senhora.
- Até lá, senhor.
Dulcina apressou-se casa adentro. Queria saber como estavam suas mucamas. Estavam na cozinha, ainda bem doloridas, com folhas de arnica sobre os hematomas e arranhões.
Dulcina entrou e abaixou-se para olhar os machucados.
Maria do Céu sorriu.
- Sinhazinha, que bom que chegou!
Já Maninha, sua mãe, ainda abalada, balbuciava coisas sobre o assalto.
Dulcina, apiedada disse-lhes:
- Meu Deus do Céu, não tenho como deixar vocês duas aqui tomando conta da casa, porque outros aparecem, e vão machucá-las novamente!
Maninha, respondeu baixinho:
- Sinhazinha, nos leve de volta com a senhora. Eu, na minha idade, não aguento apanhar de bandidos...
- Não se preocupe, Maninha. Voltarão comigo sim. Antes, porém, ficarei aqui por umas duas semanas ou mais um bocadinho, para vender essa casa de vez.
 Foi a vez de Maria do Céu dizer:
- Sinhá, como vai vender assim tão rápido, essa casa?
- Vou colocar o anúncio no jornal e também falar com alguns amigos do falecido, para espalhar por aí, que quero vender... Pode ser que até algum deles se interesse.
- Boa ideia, Sinhazinha!
Agora vou cuidar dos afazeres, fiquem repousando mais um pouco, que eu cuido da comida.
Espantada, Maninha disse:
-A Sinhá não pode fazer isso. Somos nós que temos que fazer.
- Vou só fazer a comida. Não é nada demais!
- Sim, é! Porque além de ser nossa patroa, acabou de chegar de viagem. Está cansada, ora!
- Nada, viagem não cansa tanto assim. Vou fazer apenas uma macarronada. Isso é mais rápido.
- Ah... Melhor, assim Sinhá não fica muito tempo de pé aqui na cozinha.
- Não se preocupe com isso, boa Maninha. Só fique boa dos machucados logo.

Maria do Céu, ao escutar, agradeceu por ter tão boa patroa. Que seria delas, caso Dulcina não quisesse levá-las consigo?

Os dias seguiram e nada de vender a casa, até que na segunda semana, uma pessoa bateu à porta.
Era um homem alto, cabelos escuros e lisos, nariz afilado, magro e educado, um conhecido do primeiro marido de Dulcina: Senhor Hélio Coelho. Soube pelo anúncio da venda da casa no jornal, que continuava sendo publicado.
Maria do Céu, abriu a porta já sorrindo na esperança de ser mesmo um comprador:
- Muito bom dia, senhor!
- Bom dia. Quero falar com sua patroa sobre a casa.
- Pode entrar, ela está no jardim.
Ela mostrou o caminho, e ele a seguiu, já olhando para tudo, e estimando o valor.
Dulcina estava lendo a revista “A Estação”, que geralmente tratava de moda, literatura e decoração, mas, havia um artigo naquela edição, sobre as mais recentes invenções; Ansiava que logo chegasse ao Brasil tais tecnologias, pois, eram revolucionárias para aqueles tempos!
Foi interrompida em sua leitura, ao escutar uma voz masculina atrás de si.
- Bom dia, senhora Dulcina! Como vai? Vim pelo anúncio do jornal, sobre a venda desta linda casa.
Beijou-lhe a mão, respeitosamente.
Dulcina disse à Maria do Céu:
- Céu, vai buscar um café para o senhor Hélio.
- Sim, Sinhazinha, é para já!
Maria do Céu se virou, e cruzou os dedos para dar certo.
Dulcina disse então:
- Quero vender o mais breve possível. Preciso voltar para a Bahia, mas, tenho que resolver isso. Quanto o senhor me oferece?
- Coloque preço, senhora Dulcina.
- Digamos, poderia ser em torno de 3 contos de Réis*...?

* Equivale a 369 mil Reais de hoje.

- Sim, para mim está ótimo, mas, devo lhe dizer com sinceridade, que a casa vale mais um bocado...
- Sei disso. Então, como vejo que o senhor entende, pague o que acha justo. Até porque, vou vender com tudo dentro.
- Certamente. Ofereço três contos e meio.
- Fechado!
Apertaram as mãos e combinaram para o dinheiro ser entregue dois dias depois, quando assinariam a papelada frente a um advogado.

Enquanto se resolvia tudo isso na Corte do Rio de Janeiro, uma situação inusitada acontecia na fazenda cacaueira da Bahia:
Valentim havia sido visitado por uma mulher que trazia em seus braços um filho que dizia ser seu.
Como ele já conhecia toda a história em volta de tal mulher, por ter tido outros homens, não acreditou de imediato. Porém, os traços da criança revelavam sua genética.
Era indiscutível a semelhança! E agora, o que diria para Dulcina quando voltasse?
O adultério que ela já desconfiava, assim seria revelado com a presença daquele filho.
A mulher disse que não o havia batizado ainda, pois, aguardava que ele reconhecesse o filho e escolhesse o nome. Naquela época, filhos ilegítimos (fora do casamento) geralmente não eram mesmo registrados com o nome de seus pais.
No entanto, Valentim garantiu que nada faltaria para o menino.
Pressupunha que Dulcina ficaria chocada ao saber, e não gostaria nada que ele formalizasse a paternidade do menino.
Pois, ele estava muito enganado quanto a isso.
Assim que Dulcina voltou, depois da longa viagem, ficou sabendo de tudo e limitou-se a olhar para Valentim e dizer:
- Minhas suspeitas estavam certas. Enfim, meu caro, acho que nada mais me prende a você. Espero que reconheça seu filho e vá viver com a mulher que muitas vezes possa ter sido seu cobertor...
- Como assim, o que está me dizendo?
- Isso mesmo que ouviu: Vá ficar com ela, e crie seu filho. Agora, já que Alícia não é mesmo sua filha, e sou sua madrinha, ela vai comigo de volta para Taubaté.
- Mas, os meus ex sogros o que diriam de você voltar com a neta deles e sem mim?
- Deixe comigo que me encarrego das desculpas. Não se incomode de aparecer mais por lá. Alícia vai ser muito bem criada.
- Mas, sem um pai por perto...
- Mães são mais necessárias do que pais. Além do mais, você aceitou bem rápido o que eu disse. Sinal, que estou dando um alívio à sua mente, e problemas... Portanto, meu caro, é o fim do nosso casamento.

Gonçalo que entrava na sala, pegou o finalzinho da conversa. Tossiu para mostrar presença.
Dulcina virou-se e disse para ele:
- Gonçalo, minha estadia aqui será por pouco tempo. Logo retornarei para a fazenda de meus pais. Preciso antes prepará-los com uma carta, como fiz quando deixei a Corte do Rio de Janeiro.
- Bem, aqui você já tem um lar. Não precisaria sair de minha fazenda. Quem errou nisso tudo, perdoe a sinceridade, foi meu primo (disse isso, fitando Valentim a sério). Acho que se alguém tem que sair, seria ele. Papel de homem...
- Sim, mas, ele se quer mencionou essa opção!
 Valentim constrangido perante seu primo e esposa, abaixou a cabeça e disse:
- Certamente que eu quem deva sair da fazenda. Mas, e quanto a administração, primo?
- Arrume outro emprego nas fazendas cacaueiras da região. Você é bom no que faz, e com certeza, um dos barões lhe dará um trabalho. Ou vá para Salvador com sua nova família, e trabalhe como professor de música novamente.
- Bem, se é assim, então façamos nossas contas agora mesmo, que daqui já sigo minha vida.
Gonçalo o chamou até o escritório, e lá fizeram suas contas.
Dulcina sentiu como se alguém tivesse lhe tirado um fardo dos ombros...
Pensou:
“Um casamento que já andava ruim, teve fim.”

Capt 10- Final


Meses se passaram desde então. Dulcina não pensava mais em voltar para Taubaté.
Refletiu muito sobre isso:
Uma vez já bastou. Afinal, que mulher seria ela, se a qualquer sinal de problema, voltasse para casa paterna? Não! Ela era uma mulher emancipada, bem resolvida e poderia se sustentar:
Afinal, tinha o dinheiro da venda da casa muito bem guardado no Banco do Brasil, além daquele que seu primeiro marido havia deixado. E ainda tinha suas joias, que se tivesse um grande momento de precisão, poderia empenhar também.

Ela tinha orgulho de si. Era capaz de criar uma criança que foi lhe posta em mãos pelo destino, e sem uma figura paterna por perto.
Gonçalo a admirava cada diz mais. Ficaram mais amigos do que nunca antes foram.
Havia cumplicidade ali. Desejo também. Ele já a amava em segredo.
Porém, nunca teve a oportunidade de lhe dizer abertamente. Antes nem podia.
Dulcina, muito astuta, lia os sinais: Ele deixava rastros de carinho, cuidado, confiança...
Ela retribuía da mesma forma.
Numa noite, Alícia pediu para sua mãe/madrinha, se podia lhe cantar uma música antes de subirem para o quarto para dormir.
Dulcina cantou como um rouxinol em dias ensolarados!
Gonçalo, que estava com um livro de Machado de Assis em mãos, parou a leitura, embevecido com a voz de Dulcina. Nunca antes a ouvira cantar.
Quando ela terminou a suave canção, ele não se deteve e aplaudiu efusivamente!
- Nunca ouvi voz tão linda! Canta como os anjos!
- Ora, que nada, Gonçalo!
- Sim, sim! Mas, leve a menina para dormir, que os olhos dela já pesam. Quase não os mantém abertos!
- É verdade. Venha meu amorzinho, para o colo da dinda.
Alícia pulou nos braços de Dulcina, e acenou dando boa noite para Gonçalo.
Ele as seguiu com os olhos, subindo os degraus para o quarto. Estava decidido a abrir seu coração finalmente...
Seria pela manhã, quando fosse servido o café na varanda: Com os raios do sol como testemunha, e o ar fresco cheirando a cacau.

O céu estava com uma aparência linda, a abóboda laranja, despontava no horizonte.
Gonçalo mal conseguira dormir, a ansiedade vertia em sua mente:
Assim que Dulcina descesse para a refeição matinal, ele sem rodeio, chegaria ao seu objetivo: Declararia seu amor e esperava que ela o aceitasse.
Os pássaros pareciam adivinhar sua intenção, pois cantavam alegremente como um coral bem afinado e feliz.
Não demorou muito e Dulcina descia com Alícia, segurando a saia para não tropeçar nos degraus.
Fazia um barulho bem característico na madeira, quando alguém pisava no último degrau. Dessa forma, ele soube que ela já vinha para o café da manhã na varanda.
Alícia falou olhando para Gonçalo:
- Olha, dinda, o primo está nos esperando!
 Não era comum isso. Ele geralmente se levantava lá pelas seis horas da manhã, bem depois do galo cantar. Tomava um café rápido, na cozinha mesmo, e saía para fiscalizar os trabalhadores na lida do cacau.
Dulcina ao perceber aquilo, olhou para Gonçalo e disse curiosa:
- Ora, ora! O que aconteceu contigo, para estar ainda aqui, e não, a percorrer a fazenda? Está doente?
- Bom dia Dulcina e Alícia! Minha saúde está a pleno vapor. O motivo que me deixou esperando as duas para o café da manhã, foi outro.
Dulcina acomodou-se e Alícia sentou-se perto de sua cadeira, já colocando o leite em sua xícara, e se servindo de uma fatia do bolo de puba.
Dulcina foi dizendo:
- Mas, então fale do que se trata, estou curiosa!
- Bem, é um assunto delicado, no entanto, não posso mais guardar comigo. Mesmo Alícia estando presente, e talvez não entenda o que esse momento significa, quero abrir meu coração.
- Diga logo, homem! Assim me mata te aflição. Algum parente doente ou algo pior?
- Não se trata de nada ruim. Pelo contrário: Quero lhe dizer o quanto a amo e gostaria que fosse minha companheira.
- Nossa! Sabia que nutria algo por mim pelas suas atitudes sempre atenciosas, mas, daí a me querer como companheira... Não posso ser sua esposa, pois, ainda sou casada com Valentim.
- Sei disso. Contudo, assim como ele hoje vive com uma outra mulher, você também pode ter esse direito, e ainda se deixar ser feliz... Comigo!
Alícia bateu palmas e disse serelepe com um sorriso de ponta a ponta:
- Vai, dinda, aceita! O primo é bonzinho...
 Gonçalo sorriu de volta e aproveitando a deixa acrescentou:
- Veja, que até a pequena, percebe que daria certo entre nós...
- Sim, sei que daria, mas...
- Mas...?
- Bem, preciso fazer umas perguntas: Caso eu não possa ser mãe, interfere em alguma coisa?
- Absolutamente, não! Temos Alícia.

Agora você já tem a guarda oficial dela, e Valentim, nem pense em um dia tentar tirá-la de você, pois, compraria uma briga feia comigo! E quais são as outras perguntas?
- Caso eu queira viajar para qualquer lugar, se incomodaria?
- Não, desde que esteja acompanhada de alguém de sua confiança, para sua segurança, é claro... Não se pode viajar sozinha por aí, bandidos atacam em todo lugar.
- Disso eu sei. Agora a última pergunta:
O que viu em mim?
-Tudo: Companheirismo, carinho, responsabilidade, inteligência, leveza... E algo mais.
- Esse algo mais, seria o que penso?
- Acho que estamos falando da mesma coisa, sim...
Ela respondeu baixinho para Gonçalo:
- Certo. Então, estamos bem! Pois, eu já não aguentava a vida de mulher sem um homem, para partilhar a mesma cama.
Ele sorriu satisfeito. Beijou-lhe as mãos e em seguida, a face rubra que Dulcina exibia.
- Então, mais feliz do que nunca, farei uma pequena comemoração aqui na fazenda, já que casamento não podemos fazer.
- Certamente que eu organizarei cada detalhe do meu jeito... E escolherei a data para isso.
- Obviamente! Pois, é a dona desta casa de hoje em diante, e assim, todos os empregados obedecerão aos seus mandos.
Alícia pediu para sair da mesa, porque sua barriguinha já estava cheia. Dulcina deixou e recomendou que brincasse perto dos seus olhos.
Sozinhos à mesa, ele fez um carinho no rosto de Dulcina e a beijou pela primeira vez. Um beijo longo, cálido, cheio de amor e desejo.
Ela nunca antes fora beijada por nenhum de seus maridos anteriores, daquela maneira! Sentiu um arrepio a percorrer o corpo, o calor subiu, as mãos tremeram...
Ele sussurrou ao seu ouvido:
- Esta noite.
- Sim, esta noite serei sua.

O dia pareceu encantado, e Dulcina via beleza em cada canto que olhasse.
Inspirada, fez poesia, cantou e dançou com Alícia, por último, organizou o jantar de forma que estivesse a contento para a ocasião: Seu primeiro jantar como a dona da casa.
As luzes das velas nos candelabros, faziam o toque especial, a mesa com uma toalha de renda do tempo do primeiro império, foi cuidadosamente lavada para aquela ocasião. Talheres e louças vindas da Espanha, estavam sendo usados para o jantar. Guardanapos de linho que antes só tinham monograma G, foram bordados pelas mucamas um D ao lado, em quantidade de 12, pois, era o número de cadeiras daquela mesa especial.
As cortinas durante o dia também foram trocadas. Renda branca com fundo cor de rosa, era mais adequado, achou Dulcina.
Às sete da noite, foi servida uma sopa de inhame bem leve para a entrada, com torradas e consomê de berinjela. Em seguida, frango grelhado com salada feita com batatas, ovos cozidos, tomate, cebolas, azeitonas, alface e azeite. O arroz branco finalizava a refeição. Um vinho do Porto foi aberto em comemoração. Para Alícia suco de laranja.
Depois do jantar, Dulcina cantou a pedido de Gonçalo. E enquanto ela cantava, Alícia dançava frente a eles, como um balé clássico.

Por volta das dez da noite, Alícia já dormia em seu quarto.
Aproveitando o silêncio na casa, Dulcina foi levada para a suíte de Gonçalo nos braços, como noiva na noite de núpcias.
Ela estava deslumbrante e muito cheirosa. Foi a primeira observação de Gonçalo.
Aquela noite para Dulcina, foi sim uma verdadeira noite de encanto, coisa que antes nunca sentira nos casamentos anteriores...
Pela primeira vez, um homem a via como veio ao mundo! Porque para os outros dois esposos, ela apenas levantava a camisola e nada mais.
Gonçalo foi muito carinhoso e seguia cada desejo de carícia de Dulcina, queria realmente agradá-la em primeiro lugar. Beijou-a inteira, arrancando desejos de seu corpo.
Sabia que um homem deveria tratar sua mulher como suave rosa e deixar o resto fluir... Assim, bem preparada para o ato sexual em si, seria mais fácil e prazeroso.
Foi a primeira vez que ela teve um orgasmo por relação sexual. Antes sentia certo prazer com os dois maridos, mas, nunca havia chegado ao ápice do prazer. Ela gemeu arfando, e então, ele pode seguir em frente e ter seu grande prêmio também...
Sim, ela estava satisfeita! Isso ele leu em seus olhos, com as pupilas dilatadas, e o sorriso nos lábios.
Abraçados, depois do amor, passavam os dedos na pele um do outro, como para sentir ao toque, ainda a sensação que minutos atrás, tiveram com o orgasmo mútuo.
Dormiram desse jeito, abraçados e a coberta apenas sobre seus corpos desnudos.
Cerca de dez dias depois, fizeram a comemoração daquela união, com os convidados das fazendas vizinhas.
 Dulcina não ligou para o fato de não estar casando. Afinal, ela foi casada por duas vezes, e nunca havia sido realmente feliz.
As esposas dos fazendeiros não viam com bons olhos, uma união sem pelo menos a bênção de um padre. Era como viver em pecado. No entanto, para Dulcina, isso não importava. 
E quando uma delas perguntou se ela seria feliz sem o casamento religioso, respondeu diretamente:
- Somos todos pecadores, não é?
A mulher ficou calada e pediu licença, se retirando...
Passaram seis meses depois da festa. Dulcina andava enjoada e culpava o estômago ou ao fígado, por comer tanto chocolate.
No entanto, as regras não vieram...
Desconfiada de uma possível gravidez, mas, sem certeza, pois, poderia ser apenas um atraso por anemia, ficou calada.
Mas, teve que revelar suas suspeitas para Gonçalo depois de ter um desmaio.
Alícia estava com ela na varanda, e gritou para que ajudassem:
- Ajudem a madrinha, ela caiu no chão!
Dois homens vieram correndo e a levaram para dentro de casa. Deitaram na namoradeira do salão. Filó veio correndo assim que chamaram na cozinha, trazendo vinagre para que ela cheirasse e voltasse os sentidos.
Alícia pediu para Joaquim avisar Gonçalo, pois, ele já estava na supervisão do trabalho na fazenda.
Joaquim pegou um cavalo e saiu para procurar o patrão.
Achando, relatou o acontecido. Gonçalo pegou seu cavalo e voltou para o casarão apreensivo.
Pediu que Maninha viesse vê-la, pois, médicos somente em Salvador.
Maninha disse assim que Dulcina recobrou os sentidos:
- Sinhazinha, anda com enjoos... Agora esse desmaio... Sinhá, e sua regra, veio esse mês?
- Ainda não. Na verdade, há um mês e meio que não aparece.
- Então, acho que temos uma criança a caminho...
- Você acha que pode ser isso, Maninha?
- Deixa ver seus mamilos, Sinhazinha, porque se estiverem ficando mais escuros, aí tenho certeza!
 Nesse ponto, Gonçalo disse para quem estava presente sair. Deixando apenas Maninha, com Dulcina.
A mucama olhou e disse com um sorriso de dar gosto:
- Sinhá, prepare o enxoval, vamos ter choro de criança aqui!
Dulcina maravilhada com a boa notícia, abraçou Maninha e beijou-lhe o rosto repetidas vezes.
Aquela era melhor coisa que havia acontecido para ela na vida! Ser mãe, finalmente! Não que não fosse de Alícia, mas, gerar diretamente de seu ventre, seria uma experiência maravilhosa!
Ela mandou chamar a menina para dar a notícia.
Alícia veio afoita para saber o que acontecia com a madrinha.
Gonçalo a colocou no colo, e disse para Dulcina:
-  Pode dar a notícia.
- Alícia, meu amorzinho, você vai ganhar companhia, estou esperando um bebê!
- Madrinha! Quer dizer que vou ser a irmã mais velha, né?
- Sim, meu coração! Você vai poder me ajudar a cuidar do bebezinho.
- Ela desceu do colo de Gonçalo, e fez carinho na barriga de Dulcina dizendo:
- Mas, ainda não está grande...
- Vai estar em breve, com o passar do tempo.
Ela sorriu docemente, como se fosse um pirulito a ser provado devagar...
Gonçalo disse para Alícia:
- Agora me deixe com sua madrinha um pouquinho, e vá brincar, mas, por perto, viu?
- Sim, chefinho.
Ela respondeu batendo continência. Ele se surpreendeu com aquilo. Intrigado, perguntou:
- Onde aprendeu isso, e por que me chamou de “chefinho”, Alícia?
- Ah, foi um sonho que tive, tinha uma guerra, e eu cuidava dos doentes, e fazia isso para um moço, que parecia meu chefe.
- Que nunca haja uma guerra, onde mulheres possam estar envolvidas! Isso seria terrível demais!
 Dulcina então disse, aquietando aquela conversa repentina:
- E se um dia acontecer, mulheres como eu e outras tantas, farão a diferença, se os homens precisarem de nossos serviços. Por que não? Mas, deixemos as coisas brandas, pois, o momento é de pensar em alegria! Afinal, temos uma criança para chegar em meses...
- Sim, madrinha, vamos ficar muuuuuito felizes!
- Isso, meu amor. Agora vá brincar um pouco.
Ela fez uma reverência quando saiu.
Eles riram. Alícia estava crescendo rápido e ficando muito esperta!

Os meses corriam e a hora do parto chegaria em breve. Porém, um acontecimento acelerou o processo: O sumiço de Alícia!
Ela havia saído para brincar no entorno, logo depois da refeição matinal, e não havia voltado para o almoço. Todos os empregados e escravos foram chamados para procurar a menina.
Por toda parte foi procurada e não achavam... Dulcina passava mal, desesperada pela afilhada, começou a chorar temendo por ter acontecido algo de ruim...
Gonçalo tentava acalmá-la dizendo que isso não seria bom para o bebê e que ele mesmo sairia a cavalo para continuar as buscas.
Ele tomou o garanhão mais rápido da fazenda e foi procurá-la. Não poderia estar longe, mesmo que tivesse saído distraída pela estrada...
Finalmente achou-a e para sua surpresa, estava com Valentim. Ele aparecera logo depois do café da manhã, e pediu que ela o acompanhasse para conversarem sem ninguém conhecido por perto...
Como ele era seu pai, achou que podia sair com ele, que não teria problema. Ele foi conversando e a levando para for ado perímetro da fazenda. Sua intenção era levá-la consigo.
O filho que tivera com a outra mulher, havia falecido de doença rara na região. Ele inconformado, resolveu que pegaria Alícia de volta.
Todavia, teria que convencer a menina a ir com ele, sem despertar medo, assim, disse que seria apenas uma caminhada juntos para conversarem e matar as saudades...
Ela ingenuamente aceitou.
Gonçalo, os encontrou à beira de um riacho.
O cavalo de Valentim estava ali amarrado a uma árvore. Rapidamente desceu e confrontou seu primo. E depois de uma agressão verbal de ambos, a menina interrompeu gritando:
- Parem, parem! Pai, não quero ir com o senhor. Primo, me leve de volta para a madrinha.
 Valentim diante disso, abraçou Alícia e disse com lágrimas nos olhos:
- Tem certeza de que não quer vir comigo?
- Sim, papai. Quero ficar com minha dinda. Ela precisa de mim e o bebê que vai chegar também.
- Que bebê?
- O que ela está esperando, ora!
- Ah, dessa não sabia... Então, Gonçalo devo presumir que você seja o pai.
- Obviamente que sim! Eu e Dulcina vivemos maritalmente, e não é segredo nenhum.
Aqui na região, todos vieram na época para nossa comemoração.
- Pois, então isso é mesmo o fim da nossa amizade, primo. Vou embora.
- Sem ressentimentos, por favor...
 Valentim montou no seu cavalo, e seguiu sem olhar para trás.
Gonçalo pôs Alícia sobre o seu, e voltou para a fazenda.
Quando chegou, Dulcina estava em trabalho de parto, faltava cerca de vinte dias para isso, porém, tudo foi apressado...
A criança enfim nasceu.

Voltamos onde tudo começou:
“A ex escrava balançava o bebê num cesto feito de cordas, forrado com muitas cobertas de linho, para tornar afofado o local onde a criança dormia.
O calor daquele verão estava maior do que os anos anteriores, no estado da Bahia. Era tarde, e a noite já se aproximava. O vento esfriaria então, aquele fim de dia.
Ela voltou os olhos para Marina (nome dado por Dulcina, assim que a teve nos braços), que já dormia.
“Era um anjo no corpo de uma menina.”  Pensava, enquanto embalava a filha da dona da casa...
O parto da senhora tinha sido difícil, quase morreu naquele momento. A boa mulher que agora estava com o bebê, foi a sua parteira, para sua sorte.
A sua liberdade foi justamente conseguida, devido ao chamado "milagre" de ter salvo mãe e filha.”

 Gonçalo perguntou para Filó:
- Por que não chamaram Maninha ou Maria do Céu?
- Maninha também passou mal, sinhozinho. Está bem velha, a pressão deve ter subido. A filha foi cuidar da mãe, com medo que morresse. Então chamei a parteira das escravas.
- Certo, fez bem. Agora vamos ao que interessa, cuidar de Dulcina e de Marina!
 Seus olhos se encheram de lágrimas ao segurar a filha. Nunca na vida teve momento em que deixasse o choro tomar conta de si. Aquele era um momento especial...
 Alícia entrou no recinto e disse já querendo pegar na irmãzinha:
- Que linda que ela é, dinda! Posso pegar?
- Ainda não, mas, assim que ela ficar mais durinha, vai poder segurar.
Alícia deu um daqueles seus sorrisos, que enchem de alegria a qualquer um...
Dulcina abraçou Gonçalo e se beijaram. Nada como esperar Pelo Sol do Entardecer...

(Fim? Não, continua em breve...)






Obs: Esse livro foi feito em plena quarentena do Covid 19. Um exercício de escrita, para dias conturbados: Fim de um ciclo, e um novo, que se aproxima...