segunda-feira, 1 de maio de 2017

AMITAF 2

Era o dia 11 de abril de 1980. Amitaf acabara a sua aula de jazz.
Foi para o banheiro da escola, tomar seu banho (que também ficava no subsolo do prédio como a lanchonete).
As meninas lésbicas da outra classe, sentavam no banco grande que havia ali, e ficavam olhando as demais vindas da dança tomarem seu banho...
 Amitaf não entendia como uma escola particular, não tinha portas no box de banho.
 Era constrangedor aquelas jovens ficarem saboreando os corpos das demais, com seus olhares.
 Na verdade, não tinha nada contra as pessoas escolherem ser lésbicas, bissexuais ou gays.
Amitaf era desprovida de todo e qualquer preconceito.
Ela achava que todos eram livres para suas escolhas. O problema era sentir-se vigiada, invadida na sua privacidade do banho.
Mas, ela resolveu que isso não iria mais incomodá-la. Faria de conta que não estavam ali.
 Depois do banho frio, enxugou os cabelos, penteou frente ao espelho  que servia para todas as jovens  que o disputava de ponta a ponta. Recolocou seus brincos de pingentes amarelos que havia ganhado de sua avó portuguesa e também o anel de ouro em formato de flor, que culminava com uma pedra azul.
 Uma das lésbicas piscou para ela. Ela fingiu não notar.
Saiu da escola finalmente rumo ao ponto de ônibus. Um grande incêndio havia acontecido no bairro, nas horas em que estava dentro da escola. Ela de nada sabia até aquele momento.
 O trânsito agora era terrível, pois carros dos bombeiros estavam por toda parte. O que havia começado somente em uma loja de móveis infantis, tinha se espalhado por mais 3 lojas vizinhas.
Era esperar e aguardar que finalmente o trânsito voltasse o normal, quando os bombeiros liberassem as pistas da Av. Edgar Romero. Já passava das 17:30 hs, e ela então pegou umas fichas e colocou no orelhão para ligar para sua mãe, avisando do porquê estar tão atrasada.
 A mãe como sempre já estava aflita: Sempre que passava do horário de alguém da família chegar, ela se preocupava imaginando mil e uma possibilidades...
 Amitaf a tranquilizou. Era aguardar que o ônibus da linha 712, chegasse, e ela entraria logo, mesmo que cheio.
 A mãe ficou mais calma.
 Amitaf voltou ao ponto de ônibus e aguardou. Finalmente ela pegou um que vinha lotado. Ficou no final do ônibus, numa única cadeira que vagueou logo após sua subida.
Do outro lado da catraca, estava um jovem. Seus olhares se cruzaram.
E Amitaf então descobriu porque aquele dia amanhecera diferente...
 'Alguém' avisara-lhe no ouvido:
"É com esse que você vai se casar".
Há coisas que só o destino sabe o porquê...
Aconteceu. Ele pintou assim.



Fátima Fatuquinha Abreu



Nenhum comentário:

Postar um comentário